poeta, escritor, contista, jornalista, radialista, pesquisador e produtor cultural
terça-feira, janeiro 11, 2011
querer amar (eu e você)
©MARISA LY
eu não sei amar...
se soubesse, estava amando
com unhas e dentes
não sei pensar sobre o amor
porque penso que ele deveria ser
como o ar que respiro
não sei dizer dele senão vida,
existência... não sei dizer dele
além de senti-lo nas veias
das coisas todas que aprendi
entre medos e desordem
entre faltas e ausências
entre silêncios imensos
não aprendi a amar...
porque amar, não sei...
algo me diz que amar não tem que aprender
algo me diz que amar é maior
algo me diz que amar é... ser!
e, no entanto, amar
de repente
pode ser mais simples!
amar pode ser apenas querer!
©MARISA LY
eu não sei amar...
se soubesse, estava amando
com unhas e dentes
não sei pensar sobre o amor
porque penso que ele deveria ser
como o ar que respiro
não sei dizer dele senão vida,
existência... não sei dizer dele
além de senti-lo nas veias
das coisas todas que aprendi
entre medos e desordem
entre faltas e ausências
entre silêncios imensos
não aprendi a amar...
porque amar, não sei...
algo me diz que amar não tem que aprender
algo me diz que amar é maior
algo me diz que amar é... ser!
e, no entanto, amar
de repente
pode ser mais simples!
amar pode ser apenas querer!
antes que cante o galo
antes que toque o sino
antes que feche a porta
antes que a boca cale
antes que o corpo pare
antes que o coro desafine
antes que a paixão naufrague
antes que o tempo acabe
antes que o gatilho dispare
antes que o cálice transborde
antes que a chama da vela apague
antes que o cio acabe
antes que vida falhe
antes que o relógio desperte
antes que a estrada acabe
é bom que um de nós fale
© Ademir Antonio Bacca
de "Poesia do Brasil” – Volume 12
antes que toque o sino
antes que feche a porta
antes que a boca cale
antes que o corpo pare
antes que o coro desafine
antes que a paixão naufrague
antes que o tempo acabe
antes que o gatilho dispare
antes que o cálice transborde
antes que a chama da vela apague
antes que o cio acabe
antes que vida falhe
antes que o relógio desperte
antes que a estrada acabe
é bom que um de nós fale
© Ademir Antonio Bacca
de "Poesia do Brasil” – Volume 12
quarta-feira, dezembro 08, 2010
da preguiça
construo o amanhã
do jeito que dá:
é o sonho que tem pernas
e me leva pro lado de lá
não mexo na pedra
que atrapalha o caminho,
nem troco a palavra
que confunde o poema:
é o ponteiro das horas
quem apressa meu caminhar
construo o dia de amanhã
com o pouco que o hoje me dá:
é o canto atrapalhado do galo
quem diz a hora de acordar
não dou corda
no relógio parado,
nem reclamo se o coração dispara:
há um buraco na parede da memória
e por ele me fugiram algumas lembranças
e também se foi o ponteiro das horas.
© ADEMIR ANTONIO BACCA
da antologia “Poesia do Brasil” – Volume 12
construo o amanhã
do jeito que dá:
é o sonho que tem pernas
e me leva pro lado de lá
não mexo na pedra
que atrapalha o caminho,
nem troco a palavra
que confunde o poema:
é o ponteiro das horas
quem apressa meu caminhar
construo o dia de amanhã
com o pouco que o hoje me dá:
é o canto atrapalhado do galo
quem diz a hora de acordar
não dou corda
no relógio parado,
nem reclamo se o coração dispara:
há um buraco na parede da memória
e por ele me fugiram algumas lembranças
e também se foi o ponteiro das horas.
© ADEMIR ANTONIO BACCA
da antologia “Poesia do Brasil” – Volume 12
RASGO PAPÉIS
© DALMO SARAIVA
Vou comendo trapos e tripas,
Mas por baixo dos panos
Guardo sonhos de vida.
Me presenteio o que posso
E aproveito os laços
Quando desamarro os embrulhos.
Rasgo papéis para não cruzar os braços.
Estico bem os passos
Sem pensar em encurtar o tempo.
Ajunto meus pedaços
Desse quebra cabeças
Sustentado pelo meu pescoço.
© DALMO SARAIVA
Vou comendo trapos e tripas,
Mas por baixo dos panos
Guardo sonhos de vida.
Me presenteio o que posso
E aproveito os laços
Quando desamarro os embrulhos.
Rasgo papéis para não cruzar os braços.
Estico bem os passos
Sem pensar em encurtar o tempo.
Ajunto meus pedaços
Desse quebra cabeças
Sustentado pelo meu pescoço.
o maior amor do mundo
não é aquele que os poetas
tentam descrever em versos perfeitos
nem é aquele que todos nós
sonhamos encontrar um dia
na próxima esquina de um caminho
qualquer
o maior amor do mundo
não é perfeito
e quase sempre não tem pé
nem cabeça,
apenas é.
não tem curvas,
meias palavras
e sequer explicação.
o maior amor do mundo
é aquele que cabe
na palma da mão.
© Ademir Antonio Bacca
não é aquele que os poetas
tentam descrever em versos perfeitos
nem é aquele que todos nós
sonhamos encontrar um dia
na próxima esquina de um caminho
qualquer
o maior amor do mundo
não é perfeito
e quase sempre não tem pé
nem cabeça,
apenas é.
não tem curvas,
meias palavras
e sequer explicação.
o maior amor do mundo
é aquele que cabe
na palma da mão.
© Ademir Antonio Bacca
segunda-feira, novembro 22, 2010
MÉRITO TALIAN 2010
Durante a realização do III FÓRUM NACIONAL DA LÍNGUA TALIAN e do XIV ENCONTRO NACIONAL DOS DIFUSORES DO TALIAN, eventos integrantes do calendário de festejos dos 135 anos da Imigração Italiana no Brasil, tive a honra de ser agraciado com o MÉRITO TALIAN 2010, por serviços prestados em favor da preservação do folclore e da língua dos primeiros imigrantes italianos vindos ao país.
A solenidade de entrega de diploma e troféu aconteceu na noite do dia 13 de novembro, no Salão de Festas do Clube Gaúcho, na cidade de Serafina Corrêa.
A promoção dos eventos foi da Prefeitura local, Federação das Associações Ítalo-Brasileiras do Rio Grande do Sul, Federação dos Vênetos do Rio Grande do Sul e Associação dos Difusores do Talian no Brasil.
A moça bonita que me entregou a distinção é Débora Ziliotto, Princesa do Cinquentenário de Serafina Corrêa, cidade onde nasci.
O chá de Churchill
Aconteceu num dos discursos de Churchill em que uma deputada oposicionista, Nancy Astor, conhecida por sua impertinência, pediu um aparte. Todos sabiam que Churchill não gostava que interrompessem os seus discursos. Mas concedeu a palavra à deputada. E ela, com raiva reprimida, declarou:
— Senhor Ministro, se Vossa Excelência fosse o meu marido, eu colocava veneno em seu chá!
Churchill, lentamente, tirou os óculos, seu olhar astuto percorreu a platéia e, naquele silêncio em que todos aguardavam, lascou:
— Nancy, se eu fosse o teu marido, eu tomaria esse chá com prazer!
quarta-feira, novembro 03, 2010
AS PALAVRAS E AS COISAS
© JOAQUIM BRANCO
A poesia vem das coisas
que se fazem dia-a-dia.
Desde o outono que começa
nessas folhas caídas pela chuva
a uma nova aragem que separa
as temperaturas da terra.
Aqui não chegam ventos alísios
ou polares frios contra o verão,
mas uma breve brisa alerta
para as amenidades do corpo.
A poesia traz as coisas para si
e de si as reinventa para a vida.
Ela alimenta o poema que volta
de novo às coisas para habitar o mundo.
do livro “Jogo de Palavras”
© JOAQUIM BRANCO
A poesia vem das coisas
que se fazem dia-a-dia.
Desde o outono que começa
nessas folhas caídas pela chuva
a uma nova aragem que separa
as temperaturas da terra.
Aqui não chegam ventos alísios
ou polares frios contra o verão,
mas uma breve brisa alerta
para as amenidades do corpo.
A poesia traz as coisas para si
e de si as reinventa para a vida.
Ela alimenta o poema que volta
de novo às coisas para habitar o mundo.
do livro “Jogo de Palavras”
o rio dos meus olhos
o rio
que agora banha
meus dias,
tem o sal
de muitas lágrimas
misturado a suas águas
tanta vida que se foi,
acordes dispersos no ar
sonhos que o vento levou
em madrugadas profanas
a água
que alimenta
o rio dos meus olhos
move o moinho da saudade
na noite que não acaba
toda paixão
que não tem
porto seguro
naufraga
na entrada do cais
© Ademir Antonio Bacca
da antologia “Poesia do Brasil” – Volume 11
o rio
que agora banha
meus dias,
tem o sal
de muitas lágrimas
misturado a suas águas
tanta vida que se foi,
acordes dispersos no ar
sonhos que o vento levou
em madrugadas profanas
a água
que alimenta
o rio dos meus olhos
move o moinho da saudade
na noite que não acaba
toda paixão
que não tem
porto seguro
naufraga
na entrada do cais
© Ademir Antonio Bacca
da antologia “Poesia do Brasil” – Volume 11
A pequena morte
© EDUARDO GALEANO
© EDUARDO GALEANO
Não nos provoca riso o amor quando chega ao mais profundo de sua viagem, ao mais alto de seu vôo: no mais profundo, no mais alto, nos arranca gemidos e suspiros, vozes de dor, embora seja dor jubilosa, e pensando bem não há nada de estranho nisso, porque nascer é uma alegria que dói. Pequena morte, chamam na França, a culminação do abraço, que ao quebrar-nos faz por juntar-nos, e perdendo-nos faz por nos encontrar e acabando conosco nos principia. Pequena morte, dizem; mas grande, muito grande haverá de ser, se ao nos matar nos nasce.
quinta-feira, outubro 07, 2010
segunda-feira, junho 21, 2010
POEMA À BOCA FECHADA
JOSE SARAMAGO
(1922 – 2010)
Não direi:
Que o silêncio me sufoca e amordaça.
Calado estou, calado ficarei,
Pois que a língua que falo é de outra raça.
Palavras consumidas se acumulam,
Se represam, cisterna de águas mortas,
Ácidas mágoas em limos transformadas,
Vaza de fundo em que há raízes tortas.
Não direi:
Que nem sequer o esforço de as dizer merecem,
Palavras que não digam quanto sei
Neste retiro em que não me conhecem.
Nem só lodos se arrastam, nem só lamas,
Nem só animais boiam, mortos, medos,
Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam
No negro poço de onde sobem dedos.
Só direi,
Crispadamente recolhido e mudo,
Que quem se cala quando me calei
Não poderá morrer sem dizer tudo.
(De “Os Poemas Possíveis”, 1966)
JOSE SARAMAGO
(1922 – 2010)
Não direi:
Que o silêncio me sufoca e amordaça.
Calado estou, calado ficarei,
Pois que a língua que falo é de outra raça.
Palavras consumidas se acumulam,
Se represam, cisterna de águas mortas,
Ácidas mágoas em limos transformadas,
Vaza de fundo em que há raízes tortas.
Não direi:
Que nem sequer o esforço de as dizer merecem,
Palavras que não digam quanto sei
Neste retiro em que não me conhecem.
Nem só lodos se arrastam, nem só lamas,
Nem só animais boiam, mortos, medos,
Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam
No negro poço de onde sobem dedos.
Só direi,
Crispadamente recolhido e mudo,
Que quem se cala quando me calei
Não poderá morrer sem dizer tudo.
(De “Os Poemas Possíveis”, 1966)
segunda-feira, maio 10, 2010
daquilo que importa
não importa o prato na mesa,
se ele não te saciar a mais íntima
de todas as fomes
não importa a poesia,
se ela não te abrir as janelas da vida
todos os dias
não importa a ponte,
se ela só te levar
até o outro lado do rio
não importa a palavra,
se ela só te consolar
no meio da rua
não importa a vida,
se ela é só armadilha
importa sim, o amor
mesmo que,
de vez em quando,
ele mate
© Ademir Antonio Bacca
in “Poesia do Brasil – volume 10”
não importa o prato na mesa,
se ele não te saciar a mais íntima
de todas as fomes
não importa a poesia,
se ela não te abrir as janelas da vida
todos os dias
não importa a ponte,
se ela só te levar
até o outro lado do rio
não importa a palavra,
se ela só te consolar
no meio da rua
não importa a vida,
se ela é só armadilha
importa sim, o amor
mesmo que,
de vez em quando,
ele mate
© Ademir Antonio Bacca
in “Poesia do Brasil – volume 10”
testamento
deixo o corpo cansado
e um fardo de emoções
já um tanto pesado de carregar
deixo sonhos por sonhar
abraços por dar
e palavras ao vento
deixo sementes por plantar
pedras por lapidar
e amanhãs por inventar
deixo um caminho pela metade
paixões mal resolvidas
e pontes por atravessar
deixo poemas incompletos,
um arco-íris no olhar
e tantas lágrimas ainda por chorar
barco longe do cais,
deixo o vento me levar.
© Ademir Antonio Bacca
in “Poesia do Brasil – volume 10”
deixo o corpo cansado
e um fardo de emoções
já um tanto pesado de carregar
deixo sonhos por sonhar
abraços por dar
e palavras ao vento
deixo sementes por plantar
pedras por lapidar
e amanhãs por inventar
deixo um caminho pela metade
paixões mal resolvidas
e pontes por atravessar
deixo poemas incompletos,
um arco-íris no olhar
e tantas lágrimas ainda por chorar
barco longe do cais,
deixo o vento me levar.
© Ademir Antonio Bacca
in “Poesia do Brasil – volume 10”
RASGO PAPÉIS
© DALMO SARAIVA
Vou comendo trapos e tripas,
Mas por baixo dos panos
Guardo sonhos de vida.
Me presenteio o que posso
E aproveito os laços
Quando desamarro os embrulhos.
Rasgo papéis para não cruzar os braços.
Estico bem os passos
Sem pensar em encurtar o tempo.
Ajunto meus pedaços
Desse quebra cabeças
Sustentado pelo meu pescoço.
© DALMO SARAIVA
Vou comendo trapos e tripas,
Mas por baixo dos panos
Guardo sonhos de vida.
Me presenteio o que posso
E aproveito os laços
Quando desamarro os embrulhos.
Rasgo papéis para não cruzar os braços.
Estico bem os passos
Sem pensar em encurtar o tempo.
Ajunto meus pedaços
Desse quebra cabeças
Sustentado pelo meu pescoço.
sexta-feira, abril 02, 2010
SEBASTIAN KRUGER — Já devo ter confessado em algum post anterior a minha paixão por caricaturas. Gasto muitas horas de internet procurando aumentar minha coleção que já deve passar das 30 mil. São muitos os meus caricaturistas preferidos e seguido tenho publicado trabalhos de alguns aqui no blog. Aos poucos pretendo apresentar os autores da minha admiração. Começo hoje por um alemão genial, que tem obsessão pelos Rolling Stones, tanto que já publicou diversos livros só com caricaturas, desenhos e pinturas dos integrantes da banda, especialmente a dupla Keith Richards & Mike Jagger.
O trabalho de Sebastian Kruger é admirado e colecionado por notáveis de Hollywood, o que dá uma dimensão do seu talento.
Nasceu em Hamlin no ano de 1963 e ganha a vida como ilustrador e pintor, usando diversas técnicas de pintura, as quais muitas vezes parecem fotografias de tão realistas que são.
Quem quiser conhecer um pouco mais da genialidade de Sebastian Kruger é só dar uma espiada em seu site e se deliciar: http://www.krugerstars.com/
EMBRIAGAI-VOS
É necessário estar sempre bêbado. Tudo se reduz a isto: eis o único problema. Para não sentirdes o fardo horrível do Tempo, que vos abate e vos faz pender para a terra, é preciso que vos embriagueis sem tréguas.
Mas – de que? De vinho, de poesia ou de virtude, como achardes melhor. Contando que vos embriagueis.
E, se algumas vezes, sobre os degraus de um palácio, sobre a verde relva de um fosso, na desolada solidão do vosso quarto, despertardes, com a embriaguez já atenuada ou desaparecida, perguntai ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que rola, a tudo o que canta, a tudo o que fala, perguntai-vos que horas são; e o vento, e a vaga, e a estrela, e o pássaro, e o relógio hão de vos responder:
- É hora da embriaguez! Para não serdes os martirizados escravos, do Tempo, embriagai-vos; embriagai-vos sem cessar! De vinho, de poesia ou de virtude, como achardes melhor.
BAUDELAIRE
1821 - 1867

PIOLIN — Comemora-se o Dia do Circo no dia 27 de março, em homenagem ao palhaço brasileiro Piolin, que nasceu nesta data na cidade paulista de Ribeirão Preto, no ano de 1897. Considerado por todos que tiveram o privilégio de vê-lo em ação um grande palhaço, Piolin se destacava por sua enorme criatividade cômica e por suas habilidades como ginasta e equilibrista. Seus contemporâneos diziam que ele era o pai de todos os que, de cara pintada e colarinho alto, sabiam fazer o povo rir. Pode-se dizer que as artes circenses surgiram na China, onde foram descobertas pinturas de quase 5.000 anos, nas quais aparecem acrobatas, contorcionistas e equilibristas. A acrobacia era uma forma de treinamento para os guerreiros, de quem se exigia agilidade, flexibilidade e força. Com o tempo, a essas qualidades se soma a graça, a beleza e a harmonia. O circo sempre, através dos anos, encantou crianças, jovens e adultos, seja como forma de diversão ou de educação.
Tempos atrás, fui autografar na Feira do Livro de Ribeirão Preto e tive o prazer de me hospedar na casa da escritora JAIR IANNI. Ali conheci o projeto da biografia de Piolin a que ela se dedicava há muitos anos. A partir de então também passei a acompanhar a sua luta pela publicação do livro, o que só viria a acontecer muito tempo mais tarde.
Por uma daquelas coincidências da vida, ainda naquela minha primeira estada em Ribeirão Preto, levado pela artista plástica Marina Zamboni Braghetto, fui a Batatais conhecer os famosos murais de Portinari na catedral, cuja cúpula foi projetada pelo pai de Marina, o arquiteto italiano Carlo Zamboni. Quem nos ciceroneou na visita foi um pintor local, Roberto Bérgamo, que também tem mural no interior da catedral.
Alguns anos depois, finalmente recebi o livro de JAIR IANNI e para minha surpresa e alegria, as ilustrações do mesmo, geniais por sinal, são assinadas por Bérgamo. O resultado foi um livro gostoso de se ler e muito bonito de se ver.
A propósito, Jair ocupa a cadeira nº 29 na Academia de Letras e Artes de Ribeirão Preto, que tem como patrono ABELARDO PINTO, ou, se preferirem, simplesmente PIOLIN, o maior palhaço brasileiro de todos os tempos.
das agonias
E se o palhaço
rir na hora errada?
E se o equilibrista
estiver embriagado?
E se o domador
borrar as calças?
E se o mágico
sumir do mapa?
E se o eleitor
pensar duas vezes
antes de votar?
E se o atirador de facas
não encontrar as lentes de contato?
E se o malabarista
trocar as bolas?
O que será de todos nós
se o sonho cair do trapézio?
© Ademir Antonio Bacca
do livro “Panis et Circenses”
E se o palhaço
rir na hora errada?
E se o equilibrista
estiver embriagado?
E se o domador
borrar as calças?
E se o mágico
sumir do mapa?
E se o eleitor
pensar duas vezes
antes de votar?
E se o atirador de facas
não encontrar as lentes de contato?
E se o malabarista
trocar as bolas?
O que será de todos nós
se o sonho cair do trapézio?
© Ademir Antonio Bacca
do livro “Panis et Circenses”
sábado, março 13, 2010
as pedras da memória – canto um
percorro o mapa da cidade
com a pressa daqueles
que desvendam
o corpo da mulher amada
pela primeira vez
busco velhas lembranças
que num tempo qualquer
deixei para trás
quando saí em busca
do tesouro escondido
atrás do teu olhar
percorro os labirintos da memória
com a angústia daqueles
que sabem que os ponteiros das horas
não andam para trás
onde a velha casa
que abrigou nossos sonhos?
onde a batida na bigorna
que orientava nossos passos?
percorro o mapa da cidade
com a dor daqueles
que descobrem que a cidade
nunca mais cantará
a nossa canção
© Ademir Antonio Bacca – do livro “O Relógio de Alice”
Para o Badoga
percorro o mapa da cidade
com a pressa daqueles
que desvendam
o corpo da mulher amada
pela primeira vez
busco velhas lembranças
que num tempo qualquer
deixei para trás
quando saí em busca
do tesouro escondido
atrás do teu olhar
percorro os labirintos da memória
com a angústia daqueles
que sabem que os ponteiros das horas
não andam para trás
onde a velha casa
que abrigou nossos sonhos?
onde a batida na bigorna
que orientava nossos passos?
percorro o mapa da cidade
com a dor daqueles
que descobrem que a cidade
nunca mais cantará
a nossa canção
© Ademir Antonio Bacca – do livro “O Relógio de Alice”
as pedras da memória – canto 2
te recordas, amigo,
desta rua
que agora corre
com mais pressa
do que corria
nos nossos verdes anos?
quantos sonhos lapidamos
em cada esquina
da velha cidade
que não existe mais?
tanto tempo que se foi,
tantos de nós que não voltaram
e nem por isso
nos deixamos embrutecer!
ainda recordo, amigo,
da vida que corria
por esta rua
e um dia começou, aos poucos,
a nos escapulir
de cada sonho
que amanheceu fora de hora
guardo o gosto de sal;
de cada abraço de despedida,
o amargo de nunca mais
te recordas, amigo,
dos amigos que se perderam
no fim desta rua?
quantos ainda saberão
que os vestígios da nossa infância
continuam gravados
na memória das pedras
da velha cidade
que ainda resistem
aos novos tempos?
têm pressa as ruas
da nova cidade, amigo
correm ao encontro
do tempo que virá,
mas sabem que nas suas pedras
estarão cimentados para sempre
os nossos sonhos de meninos.
© Ademir Antonio Bacca – do livro “O Relógio de Alice”
Para Jayme Cimenti
te recordas, amigo,
desta rua
que agora corre
com mais pressa
do que corria
nos nossos verdes anos?
quantos sonhos lapidamos
em cada esquina
da velha cidade
que não existe mais?
tanto tempo que se foi,
tantos de nós que não voltaram
e nem por isso
nos deixamos embrutecer!
ainda recordo, amigo,
da vida que corria
por esta rua
e um dia começou, aos poucos,
a nos escapulir
de cada sonho
que amanheceu fora de hora
guardo o gosto de sal;
de cada abraço de despedida,
o amargo de nunca mais
te recordas, amigo,
dos amigos que se perderam
no fim desta rua?
quantos ainda saberão
que os vestígios da nossa infância
continuam gravados
na memória das pedras
da velha cidade
que ainda resistem
aos novos tempos?
têm pressa as ruas
da nova cidade, amigo
correm ao encontro
do tempo que virá,
mas sabem que nas suas pedras
estarão cimentados para sempre
os nossos sonhos de meninos.
© Ademir Antonio Bacca – do livro “O Relógio de Alice”
segunda-feira, maio 11, 2009
encantamento
contemplo em silêncio
teu corpo inerte
que o claro de lua
revela
na noite insone
nenhum galo cantor
nenhuma música vindo de longe
a quebrar o encanto dos meus olhos
só o silêncio
e o movimento
dos meus dedos
desenhando o mapa
do teu corpo
© Ademir Antonio Bacca
do livro: “Grito por dentro das palavras”
contemplo em silêncio
teu corpo inerte
que o claro de lua
revela
na noite insone
nenhum galo cantor
nenhuma música vindo de longe
a quebrar o encanto dos meus olhos
só o silêncio
e o movimento
dos meus dedos
desenhando o mapa
do teu corpo
© Ademir Antonio Bacca
do livro: “Grito por dentro das palavras”
resoluções de ano novo
colorir o poema
com a tua imagem
entrar no túnel do tempo
em busca do que ficou
para trás
rever o cálculo do sonho
e navegar nas águas
de todas as paixões
ter a pressa do relógio
que bate descompassado
dentro de mim
toda vez que te vê
buscar atalhos
entre o arame e o trapézio
e equilibrar a emoção
mapear a nudez do teu corpo
para gravar na memória
as raízes de tanto querer
insistir na busca das palavras
com a certeza de saber
que cabem todos os poemas
dentro de mim
© Ademir Antonio Bacca
do livro: “Grito por dentro das palavras”
colorir o poema
com a tua imagem
entrar no túnel do tempo
em busca do que ficou
para trás
rever o cálculo do sonho
e navegar nas águas
de todas as paixões
ter a pressa do relógio
que bate descompassado
dentro de mim
toda vez que te vê
buscar atalhos
entre o arame e o trapézio
e equilibrar a emoção
mapear a nudez do teu corpo
para gravar na memória
as raízes de tanto querer
insistir na busca das palavras
com a certeza de saber
que cabem todos os poemas
dentro de mim
© Ademir Antonio Bacca
do livro: “Grito por dentro das palavras”
na madrugada
que se equilibra
em precárias luzes
rumino em silêncio
uma dor que nem sei
ao certo aonde dói
(se na manchete dos jornais
ou na indiferença do teu beijo)
carrossel desgovernado
girando dentro de mim
sem me levar a lugar nenhum
remôo calado
desassossegos que me inquietam
(não sei se pelo galo que não canta
ou se pela palavra que não vem)
© Ademir Antonio Bacca
do livro: “Grito por dentro das palavras”
que se equilibra
em precárias luzes
rumino em silêncio
uma dor que nem sei
ao certo aonde dói
(se na manchete dos jornais
ou na indiferença do teu beijo)
carrossel desgovernado
girando dentro de mim
sem me levar a lugar nenhum
remôo calado
desassossegos que me inquietam
(não sei se pelo galo que não canta
ou se pela palavra que não vem)
© Ademir Antonio Bacca
do livro: “Grito por dentro das palavras”
sexta-feira, dezembro 19, 2008
posologia
da vida tenho provado
doses ousadas de paixões,
daquelas que marcam fundo,
mesmo que efêmeras,
daquelas que abrem caminhos
mesmo quando não levam
a lugar algum
tenho provado da vida
doses amargas de solidão,
daquelas que fazem da paixão
relógio de ponteiros cansados
da vida tenho provado
doses de sentimentos confusos
que as noites me servem
em goles desesperados
daqueles que viram tudo
de pernas pro ar
e depois se vão
no lamento do vento
tenho provado da vida
doses ousadas de paixão
mas do sonho,
eu sempre bebo a dose exata.
© Ademir Antonio Bacca
do livro “O Relógio de Alice”
da vida tenho provado
doses ousadas de paixões,
daquelas que marcam fundo,
mesmo que efêmeras,
daquelas que abrem caminhos
mesmo quando não levam
a lugar algum
tenho provado da vida
doses amargas de solidão,
daquelas que fazem da paixão
relógio de ponteiros cansados
da vida tenho provado
doses de sentimentos confusos
que as noites me servem
em goles desesperados
daqueles que viram tudo
de pernas pro ar
e depois se vão
no lamento do vento
tenho provado da vida
doses ousadas de paixão
mas do sonho,
eu sempre bebo a dose exata.
© Ademir Antonio Bacca
do livro “O Relógio de Alice”
"A história humana não se desenrola apenas nos campos de batalhas e nos gabinetes presidenciais. Ela se desenrola também nos quintais, entre plantas e galinhas, nas ruas de subúrbios, nas casas de jogos, nos prostíbulos, nos colégios, nas usinas, nos namoros de esquinas. Disso eu quis fazer a minha poesia. Dessa matéria humilde e humilhada, dessa vida obscura e injustiçada, porque o canto não pode ser uma traição à vida, e só é justo cantar se o nosso canto arrasta consigo as pessoas e as coisas que não tem voz".
FERREIRA GULLAR
FERREIRA GULLAR
FRAGILIDADE
Este verso, apenas um arabesco
em torno do elemento essencial - inatingível.
Fogem nuvens de verão, passam ares, navios, ondas,
e teu rosto é quase um espelho onde brinca o incerto movimento,
ai! já brincou, e tudo se fez imóvel, quantidades e quantidades
de sono se depositam sobre a terra esfacelada.
Não mais o desejo de explicar, e múltiplas palavras em feixe
subindo, e o espírito que escolhe, o olho que visita, a música
feita de depurações e depurações, a delicada modelagem
de um cristal de mil suspiros límpidos e frígidos: não mais
que um arabesco, apenas um arabesco
abraça as coisas, sem reduzi-las.
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
in “A rosa do Povo”
Este verso, apenas um arabesco
em torno do elemento essencial - inatingível.
Fogem nuvens de verão, passam ares, navios, ondas,
e teu rosto é quase um espelho onde brinca o incerto movimento,
ai! já brincou, e tudo se fez imóvel, quantidades e quantidades
de sono se depositam sobre a terra esfacelada.
Não mais o desejo de explicar, e múltiplas palavras em feixe
subindo, e o espírito que escolhe, o olho que visita, a música
feita de depurações e depurações, a delicada modelagem
de um cristal de mil suspiros límpidos e frígidos: não mais
que um arabesco, apenas um arabesco
abraça as coisas, sem reduzi-las.
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
in “A rosa do Povo”
A casa das palavras
É de palavras
a casa que teimosamente
construo ao longo destes anos
que se arrastam sob meus pés
cansados
Há nela cômodos de palavras inúteis,
algumas que insisti em dizer tantas vezes
e nunca me levaram a nada;
Há na minha casa cômodos de palavras
que evitei nestes anos todos
porque sequer me consolaram
quando os dias se vestiram de dor.
É de palavras
a casa que construo pacientemente
enquanto os anos se lançam
estrada afora
e se fazem saudade que dói
feito a palavra nunca mais.
Mas há nela um cômodo especial
onde guardo as palavras mais belas:
as primeiras do meu filho,
algumas que ficaram dos amigos
a quem a estrada se fez caminho de ida
por primeiro,
as últimas do meu pai
e algumas juras de amor
que ainda aquecem as minhas noites
de poucas palavras.
© Ademir Antonio Bacca
do livro “O Relógio de Alice”
É de palavras
a casa que teimosamente
construo ao longo destes anos
que se arrastam sob meus pés
cansados
Há nela cômodos de palavras inúteis,
algumas que insisti em dizer tantas vezes
e nunca me levaram a nada;
Há na minha casa cômodos de palavras
que evitei nestes anos todos
porque sequer me consolaram
quando os dias se vestiram de dor.
É de palavras
a casa que construo pacientemente
enquanto os anos se lançam
estrada afora
e se fazem saudade que dói
feito a palavra nunca mais.
Mas há nela um cômodo especial
onde guardo as palavras mais belas:
as primeiras do meu filho,
algumas que ficaram dos amigos
a quem a estrada se fez caminho de ida
por primeiro,
as últimas do meu pai
e algumas juras de amor
que ainda aquecem as minhas noites
de poucas palavras.
© Ademir Antonio Bacca
do livro “O Relógio de Alice”
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