segunda-feira, fevereiro 21, 2011

nem todo poema

tem a pressa do rio

nem paciência

para moldar o caminho

ao redor da pedra


o poeta tem

tem a pressa da palavra


há dias

que ela flui fácil

tem vezes

que ela é mais dura

do que a pedra

no meio do rio.


© Ademir Antonio Bacca

das limitações


a

memória

é

janela

que,

mesmo

escancarada,

nunca

expõe

a paisagem

da

rua

por

completo.

© Ademir Antonio Bacca

quinta-feira, fevereiro 10, 2011

Arte: "Mona Lisa" © Worth 1000.com

ajustes

retoco o sonho
na memória
com o pouco de verdade
que me resta:

o poema consola
mas não tem bússola
que o oriente
nas coisas do coração

refaço o sonho
com toda cautela,
mas algumas vezes
não tem jeito:
aquilo que mais queremos
está mesmo no outro lado
do arco-íris

© Ademir Antonio Bacca
do livro “O Relógio de Alice” (a sair)
Arte: Achille Superbi
“O palhaço não sou eu, mas sim
esta sociedade monstruosamente cínica
e tão ingenuamente inconsciente
que joga ao jogo da seriedade
para melhor esconder a loucura.”

SALVADOR DALI
1904 - 1989
isso que chamam vida

tem dias
que me leva
pela mão

tem dias
que me arrasta,
isto que chamamos
vida

tem dias
que me consola

tem dias
que me pisa
os sonhos

nau sem rumo
isso que se diz vida
vai do jeito que dá

tem dias
que dá vontade
de ficar.

© Ademir Antonio Bacca
do livro “O Relógio de Alice” (a sair)
Arte: "God" © Marian Avramescu

pedra

pelas coisas que não compreendo
muitas vezes abro meu corpo em velas
e me lanço em águas inquietas

pelo que não sei
tantas vezes mergulhei
em madrugadas que não tiveram fim
e nunca me levaram a lugar algum

pelas coisas que não compreendo,
o silêncio se fez pedra em teu olhar

esfinge prestes a me devorar

© Ademir Antonio Bacca
do livro “O Relógio de Alice” (a sair)
Quero apenas cinco coisas...
Primeiro é o amor sem fim
A segunda é ver o outono
A terceira é o grave inverno
Em quarto lugar o verão
A quinta coisa são teus olhos
Não quero dormir sem teus olhos.
Não quero ser... sem que me olhes.
Abro mão da primavera
para que continues me olhando.

PABLO NERUDA
1904 – 1973

da curiosidade

que sonhos sonhas
nesta noite de chuva
no outro lado da cidade?

que vida passa
pela tua janela
fugindo das águas
que correm para molhar
os sonhos do lado de cá?

que palavras te consolam
nesta noite que te separa
do meu abraço?

será a mesma
a música que me conforta?

águas forçam caminhos,
a paixão tem os pés no chão
o poema, tem asas

que sonhos sonhas
longe do meu travesseiro?

© Ademir Antonio Bacca
do livro “O Relógio de Alice” (a sair)

desordem

não arrumo os livros
jogados ao acaso
nas prateleiras

nem a roupa
nas devidas gavetas

não arrumo a vida
em emoções antecipadas

nem tenho
a gaveta de sonhos
fechada a sete chaves

a vida eu levo
do jeito que dá

© Ademir Antonio Bacca

intruso

coelho desavisado
que salta da cartola
antes da hora,
o poema invade
a madrugada
e reclama tua ausência
enquanto o copo esvazia
e a música se perde
na noite que não acaba

© Ademir Antonio Bacca
do livro “O Relógio de Alice” (a sair)

quarta-feira, fevereiro 09, 2011

Convalescença de Moacyr Scliar será longa

Boletim de saúde liberado pelos médicos do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, ontem, dia 8, afirma que o escritor está recebendo o mínimo necessário de sedação e já depende menos da ventilação mecânica (por aparelhos), respirando por conta própria em vários momentos.
Ainda segundo o boletim, não é possível avaliar quais as conseqüências do AVC e como se dará a recuperação do escritor gaúcho, membro da Academia Brasileira de Letras. De acordo com os médicos que o atendem, a previsão é que Scliar terá uma convalescença prolongada.

segunda-feira, janeiro 31, 2011

Arte: Marcin Bondarowicz

da indiferença das cigarras

Cigarras anunciam
um verão que nunca esqueci,
em bosques que já não existem

nunca mais o aroma silvestre
da minha infância

nunca mais o barulho do riacho
e nem noites de vaga-lumes

cigarras cantam indiferentes
às lembranças que o poeta resgata
do seu baú de afetos.

© Ademir Antonio Bacca
do livro “Gritos por dentro das palavras”
Arte: Restrepo
“Precisamos tomar cuidado para não fazer
do intelecto o nosso deus.
Ele tem músculos poderosos, é verdade,
mas não tem nenhuma personalidade.”

ALBERT EINSTEIN
1879 - 1955
daquele tanto que meus olhos já viram

por estes olhos
que a vida um dia
há de fechar
já passaram sonhos
tantos
que até dá gosto
de se contar

mas
por estes olhos
que ainda têm
muito por chorar
já passou também
tanta morte
que nem é bom
de se lembrar

© Ademir Antonio Bacca
Arte: Gomila Agustin
“Quando os escritores morrem,
eles se transformam nos seus livros.
O que, pensando bem,
não deixa de ser uma forma interessante
de reencarnação.”

JORGE LUIS BORGES
1899 - 1986
rio quarenta graus

água
pedra
terra
sonhos
vida
morro
abaixo

a
morte
dói
mais
quando
não
chega
de
bala
perdida
ou
na
ponta
de
faca

© Ademir Antonio Bacca
Arte: Baptistão
“Escrever é gravar reações psíquicas.
O escritor funciona qual antena
– e disso vem o valor da literatura.
Por meio dela,
fixam-se aspectos da alma dum povo,
ou pelo menos instantes da vida desse povo.”

MONTEIRO LOBATO
1882 - 1948
nada sei do mar
que não histórias de pescador

também pouco sei dos segredos
do ir e vir das suas águas
em ondas que molham meus pés

mas o canto das sereias
conheço bem:
me deixo enganar por ele
desde que meus olhos
viram o mar pela primeira vez

© Ademir Antonio Bacca


ACASO

ANTOINE DE SAINT-EXUPÉRY
1900 – 1944

Cada um que passa em nossa vida,
passa sozinho, pois cada pessoa é única
e nenhuma substitui outra.

Cada um que passa em nossa vida,
passa sozinho, mas não vai só
nem nos deixa sós.

Leva um pouco de nós mesmos,
deixa um pouco de si mesmo.
Há os que levam muito,
mas há os que não levam nada.

Essa é a maior responsabilidade de nossa vida,
e a prova de que duas almas
não se encontram ao acaso.

sábado, janeiro 29, 2011

Arte: David Levine

“A vida me deu tudo que pedi,
mas se o que eu pedi foi muito pouco,
aí é problema meu.”

JEAN PAUL SARTRE
1905 - 1980
tem noites
que a saudade
arranca máscaras
com precisão cirúrgica

outras,
com a delicadeza
de um boxeador.

© Ademir Antonio Bacca

terça-feira, janeiro 11, 2011

Arte: Charito Gil “Virtuelle aus dem superrechner”

das trocas

não troco
minhas dúvidas
pelas tuas certezas
nem minhas fantasias
pela tua realidade
mas troco
o mar dos teus olhos
pelo cais do meu corpo.

© Ademir Antonio Bacca
de “”Poesia do Brasil” – Volume 12
Imagem: Elena K "Easter in Sofia"

tatuagem

a poesia
tem essa
de tatuar
a alma
de emoções

© Ademir Antonio Bacca
de “”Poesia do Brasil” – Volume 12
Arte: Tonio

"A alma nasce velha e se torna jovem.
Eis a comédia da vida.
O corpo nasce jovem e se torna velho.
Eis a tragédia da alma."

OSCAR WILDE
(1854-1900)
nem
sempre
a
palavra
é
algodão
entre
os
cristais

© Ademir Antonio Bacca
de “”Poesia do Brasil” – Volume 11
Arte: Andres Cascioli

“O mundo se divide em pessoas boas e más.
As boas têm um sono tranqüilo.
As más se divertem muito mais.”

WOODY ALLEN
querer amar (eu e você)

©MARISA LY

eu não sei amar...
se soubesse, estava amando
com unhas e dentes

não sei pensar sobre o amor
porque penso que ele deveria ser
como o ar que respiro

não sei dizer dele senão vida,
existência... não sei dizer dele
além de senti-lo nas veias

das coisas todas que aprendi
entre medos e desordem
entre faltas e ausências
entre silêncios imensos
não aprendi a amar...

porque amar, não sei...
algo me diz que amar não tem que aprender
algo me diz que amar é maior
algo me diz que amar é... ser!

e, no entanto, amar
de repente
pode ser mais simples!
amar pode ser apenas querer!

antes que cante o galo
antes que toque o sino
antes que feche a porta
antes que a boca cale
antes que o corpo pare

antes que o coro desafine
antes que a paixão naufrague
antes que o tempo acabe
antes que o gatilho dispare
antes que o cálice transborde

antes que a chama da vela apague
antes que o cio acabe
antes que vida falhe
antes que o relógio desperte
antes que a estrada acabe
é bom que um de nós fale

© Ademir Antonio Bacca
de "Poesia do Brasil” – Volume 12

quarta-feira, dezembro 08, 2010

Arte: Don Pinset

“A vida é o que acontece
enquanto você está ocupado
fazendo outros planos.”

JOHN LENNON
1940 - 1980

“Então, meus caros amigos,
vocês terão que seguir em frente:
o sonho acabou.”

JOHN LENNON
1940 - 1980

dois em um

há em mim
um lado romântico
que transpira poesia
algumas horas por dia
e um lado prático
que lava os pratos
enquanto o sono não vem

© ADEMIR ANTONIO BACCA
da antologia “Poesia do Brasil” – Volume 11
Arte: Carcamo

A imprensa livre pode, com certeza,
ser boa ou ruim,
mas, certamente, sem liberdade
a imprensa nunca será boa.

Albert Camus
1913 - 1960
da preguiça

construo o amanhã
do jeito que dá:
é o sonho que tem pernas
e me leva pro lado de lá

não mexo na pedra
que atrapalha o caminho,
nem troco a palavra
que confunde o poema:
é o ponteiro das horas
quem apressa meu caminhar

construo o dia de amanhã
com o pouco que o hoje me dá:
é o canto atrapalhado do galo
quem diz a hora de acordar

não dou corda
no relógio parado,
nem reclamo se o coração dispara:
há um buraco na parede da memória
e por ele me fugiram algumas lembranças
e também se foi o ponteiro das horas.

© ADEMIR ANTONIO BACCA
da antologia “Poesia do Brasil” – Volume 12

RASGO PAPÉIS

© DALMO SARAIVA

Vou comendo trapos e tripas,
Mas por baixo dos panos
Guardo sonhos de vida.
Me presenteio o que posso
E aproveito os laços
Quando desamarro os embrulhos.
Rasgo papéis para não cruzar os braços.
Estico bem os passos
Sem pensar em encurtar o tempo.
Ajunto meus pedaços
Desse quebra cabeças
Sustentado pelo meu pescoço.
Arte: Andres Cascioli

“A vida é uma peça de teatro
que não permite ensaios.
Por isso, cante, chore, dance,
ria e viva intensamente,
antes que a cortina se feche
e a peça termine sem aplausos.”

CHARLES CHAPLIN
(1889-1977)
o maior amor do mundo
não é aquele que os poetas
tentam descrever em versos perfeitos

nem é aquele que todos nós
sonhamos encontrar um dia
na próxima esquina de um caminho
qualquer

o maior amor do mundo
não é perfeito
e quase sempre não tem pé
nem cabeça,
apenas é.

não tem curvas,
meias palavras
e sequer explicação.

o maior amor do mundo
é aquele que cabe
na palma da mão.


© Ademir Antonio Bacca

segunda-feira, novembro 22, 2010

Foto: Michel Alban
MÉRITO TALIAN 2010

Durante a realização do III FÓRUM NACIONAL DA LÍNGUA TALIAN e do XIV ENCONTRO NACIONAL DOS DIFUSORES DO TALIAN, eventos integrantes do calendário de festejos dos 135 anos da Imigração Italiana no Brasil, tive a honra de ser agraciado com o MÉRITO TALIAN 2010, por serviços prestados em favor da preservação do folclore e da língua dos primeiros imigrantes italianos vindos ao país.
A solenidade de entrega de diploma e troféu aconteceu na noite do dia 13 de novembro, no Salão de Festas do Clube Gaúcho, na cidade de Serafina Corrêa.
A promoção dos eventos foi da Prefeitura local, Federação das Associações Ítalo-Brasileiras do Rio Grande do Sul, Federação dos Vênetos do Rio Grande do Sul e Associação dos Difusores do Talian no Brasil.
A moça bonita que me entregou a distinção é Débora Ziliotto, Princesa do Cinquentenário de Serafina Corrêa, cidade onde nasci.

poeminha armado até os dentes

o brasil
não é bagdá
mas as balas
que aqui voam
matam tanto
quanto lá.

© Ademir Antonio Bacca
in “Poeta, Mostra a Tua Cara” – Vol. 7
se o teu silêncio
grita
por quê o poema
cala?

se teus olhos
se fazem rio de lágrimas
por quê a paixão não naufraga?

© Ademir Antonio Bacca
in “Poeta, Mostra a Tua Cara” – Vol. 7
Arte: Quinho

O chá de Churchill

Aconteceu num dos discursos de Churchill em que uma deputada oposicionista, Nancy Astor, conhecida por sua impertinência, pediu um aparte. Todos sabiam que Churchill não gostava que interrompessem os seus discursos. Mas concedeu a palavra à deputada. E ela, com raiva reprimida, declarou:
— Senhor Ministro, se Vossa Excelência fosse o meu marido, eu colocava veneno em seu chá!
Churchill, lentamente, tirou os óculos, seu olhar astuto percorreu a platéia e, naquele silêncio em que todos aguardavam, lascou:
— Nancy, se eu fosse o teu marido, eu tomaria esse chá com prazer!
jogo da memória

enquanto a manhã
não se anuncia
brinco no tabuleiro da memória
mexendo lembranças
de um lado para outro
tentando encaixar
nome e fatos
no jogo de perdas e ganhos
que a vida me faz jogar
todas as noites

© Ademir Antonio Bacca
in “Poeta, Mostra a Tua Cara” – Vol. 7

quarta-feira, novembro 03, 2010



Arte: La casa dell'emigrante © AGIM SULAJ
batida
de tambor
na selva
de pedra
meu poema
queria mesmo
era ser
sinal de fumaça
no teu céu

© Ademir Antonio Bacca
da antologia “Poesia do Brasil” – Volume 11

AS PALAVRAS E AS COISAS

© JOAQUIM BRANCO

A poesia vem das coisas
que se fazem dia-a-dia.

Desde o outono que começa
nessas folhas caídas pela chuva
a uma nova aragem que separa
as temperaturas da terra.

Aqui não chegam ventos alísios
ou polares frios contra o verão,
mas uma breve brisa alerta
para as amenidades do corpo.

A poesia traz as coisas para si
e de si as reinventa para a vida.

Ela alimenta o poema que volta
de novo às coisas para habitar o mundo.

do livro “Jogo de Palavras”

o rio dos meus olhos

o rio
que agora banha
meus dias,
tem o sal
de muitas lágrimas
misturado a suas águas

tanta vida que se foi,
acordes dispersos no ar

sonhos que o vento levou
em madrugadas profanas

a água
que alimenta
o rio dos meus olhos
move o moinho da saudade
na noite que não acaba

toda paixão
que não tem
porto seguro
naufraga
na entrada do cais

© Ademir Antonio Bacca
da antologia “Poesia do Brasil” – Volume 11

manual dos pequenos atos

tramas
teias
e poemas
se tecem
com paciência

o pão
se amassa
com movimentos
fortes

o mapa
do corpo
da mulher amada
se desenha
com cautela

© Ademir Antonio Bacca
da antologia “Poesia do Brasil” – Volume 11

“É possível ser
um homem honesto
e fazer maus versos”.

MOLIÉRE
1622 - 1673
A pequena morte

© EDUARDO GALEANO

Não nos provoca riso o amor quando chega ao mais profundo de sua viagem, ao mais alto de seu vôo: no mais profundo, no mais alto, nos arranca gemidos e suspiros, vozes de dor, embora seja dor jubilosa, e pensando bem não há nada de estranho nisso, porque nascer é uma alegria que dói. Pequena morte, chamam na França, a culminação do abraço, que ao quebrar-nos faz por juntar-nos, e perdendo-nos faz por nos encontrar e acabando conosco nos principia. Pequena morte, dizem; mas grande, muito grande haverá de ser, se ao nos matar nos nasce.