domingo, maio 20, 2007


E O POETA FOI MORAR NO VENTO SUL



Aidenor Aires*






Viver muito dá nisto: somar perdas, ficar inchado de coisas que vão nos deixando pelo caminho. Raramente, os que morrem jovens, os preferidos dos deuses, contam as dolorosas aquisições modernas: diabetes, colesterol, depressão, Alzheimer, Parkinson, hipertensão etc.etc. Morrer jovem é um ícone romântico que deixa hígida, festiva e futurosa a imagem do morto. Toda a vida que poderia ter sido. Todo o amor sorrindo. Todo o sonho de realização. Vejo em seus retratos o permanente sorriso celebrando a vida e a juventude. Não ocorre o mesmo com quem estendeu o dia solar da existência. Tem que enfrentar o meio dia causticante, a tarde bochornosa, o crepúsculo opaco ou sangrante. Mais que tudo, as defecções, as fugas e a crescente solidão de ver seu grupo ir encolhendo a cada dia. As perdas não se somam num buraco que afunda em nossas vidas. Elas têm rosto, são únicas. Cada uma dói sozinha. Não se confunde, nem se mistura. Sempre penso numa orquestra quando olho meus companheiros de jornada. Ela é a convergência compulsória de vontades individuais. Cada um quer executar seu instrumento, sua voz, sua parte na partitura, o momentâneo virtuosismo. Mas o maestro os reúne na grande voz da sinfonia. Se faltar um ou desafinar dói na melodia. No último dia 15 a poesia goiana se desafinou. Calou-se o poeta Aldair Aires que, apesar da quase homofonia do nome, não era meu parente. Talvez o fosse irmão pertencente à universal grei dos Aires, desembarcada em Catalão. Foram longos anos de amizade. Ele,com sua voz bem postada, de experimentado ator, repetindo, em chiste, a interjeição dolorosa inicial de meu nome: Ai! Ai!...denor. Depois, soltava uma gargalhada e me abraçava: - Como vai nego? Sua lembrança permeia uma geração que foi paradigmática em Goiás. Atuou no teatro, pertenceu ao Grupo de Escritores Novos, exerceu o magistério. Experimentou aventuras originais. Montou o restaurante Forno de Barro, onde transferiu a poesia para o fogão e a mesa. O saboroso e hoje universal peixe na telha, galinhadas esfuziantes e uma parede com autógrafos de artistas e celebridades que freqüentavam o restaurante. Desgarrou-se depois para a Bahia, para a Amazônia. Reaproximando de Goiás, encontrei-o em Barra do Garças, lecionando na universidade. Ali se aposentou, retornando a Goiânia, já com o incômodo da enfermidade que o torturaria até o fim. Sempre fiel à poesia, às amizades. Com a voz mutilada por uma cirurgia, esforçou-se até conseguir recuperá-la e voltou a declamar. Estivemos em Bento Gonçalves, em várias cidades do Chile em 2006. Já tinha se mudado para Silvânia, onde encontrara sua Parsargada. Voltara a sorrir. Dedicava-se às atividades culturais, pesquisa de folclore, artesanato e montara sua “egoteca”, com as lembranças que reunira na vida. Dia 15, seu instrumento de alento desafinou. Temos que fazer outra orquestra. Cumpriu seu mister, como vaticinou num poema: “Catar cacos de palavras/E ir juntando aos poucos/ O quebra cabeça da vida: Eis o ofício do poeta/Que desarvora/ A cada vento sul.”




*Aidenor Aires é escritor, da Academia Goiana de Letras, e publicou este texto originalmente no Jornal “Diário da Manhã”, de Goiânia.

4 comentários:

Mônica Montone disse...

Sem dúvida foi uma grande perda, Bacca!!!

Belo texto! Bela homenagem.

beijos

MM

Nalva Kuhn disse...

Jamais ouvi alguém falar sobre essa passagem triste porém necessária e inevitável que é a morte, de uma forma tão linda.
Lindíssimo texto.
Um grande abraço

Graça Carpes disse...

Lindo!
:)

il siciliano di francia disse...

il tango di pablo neruda nel fil il postino MADRESELVA un grande poeta ciao coluccio