terça-feira, agosto 30, 2011

POESIA NOS TEXTOS SIMPLES
© Affonso Romano de Sant'Anna

© Umberto Nicolinej
 
Como desentranhar poesia de textos aparentemente simples?
Levo para o curso COMO LER POESIA, o poema de Eduardo Alves da Costa "No caminho com Maiakovsky". O poema é longo, mas a sua parte mais conhecida, é assim:

Na primeira noite/ eles se aproximam/ e roubam uma flor/ de nosso jardim./ E não dizemos nada./ Na segunda noite,/ já não se escondem: / pisam as flores, / matam nosso cão, / e não dizemos nada. / Até que um dia,/ o mais frágil deles / entra sozinho em nossa casa,/ rouba-nos a luz, / e, conhecendo nosso medo, / arranca-nos a voz da garganta./ E já não podemos nada.

Alguém pode duvidar se este texto é poesia, pois não tem rimas. Os versos, no entanto, têm ritmo embora não tão regulares como num soneto. Mas onde a poesia?

Uma das característica da poesia é a repetição. E esse texto, tem várias, num crescendo. Mas além deste dado formal, há algo quanto ao conteúdo: o texto é uma parábola. Como os mitos, as parábolas fazem alusão, tratam indiretamente um assunto, tangem, como a poesia, o imponderável. E essa parábola, apresentada ritmicamente, deixa ao leitor o preenchimento de significados. De que se trata? De uma referência a regimes totalitários? À violência cotidiana? À invasão da privacidade na sociedade atual?

Vejamos o texto mais de perto.

Quem são esses "eles" que surgem logo no princípio? A primeira frase é muito informativa e dramática: "Na primeira noite eles se aproximam". Há uma oposição entre "eles" e "nós" (lugar onde está o leitor). Constrói-se uma narrativa temporal (sintética): pois à "primeira" sucede agora a "segunda" noite de tensão. E houve um avanço dos agressores, pois eles " já não se escondem". Portanto, aumentou a ameaça.

Há um crescendo trágico: evidencia-se a impotência do "eu" diante "deles". A agressividade vinda de fora é maior: "não se escondem, pisam as flores, matam nosso cão". Como a dizer que na primeira noite nós não vimos claramente a ameaça, mas na segunda, vemos, somos testemunhas, "in presencia". Não apenas "pisam", "matam" (houve uma progressão nesses verbos), ultrapassam o jardim onde está a nossa guarda: "o cão". E como as barreiras vão caindo, aquela frase que era anteriormente separada por um ponto "E não dizemos nada", na segunda repetição é separada por uma vírgula, como se esse "e não dizemos nada" virasse um hábito, uma consequência. A violência fica sintaticamente mais evidente. Da tensão do primeiro para o segundo dia, chega-se a "um dia" não determinado, mas pateticamente esperado.

Aí, a expressão "o mais frágil deles" - aumenta a humilhação do confronto. Não é apenas o desconhecido ou violento, que mata, senão "o mais frágil deles". Não apenas o mais frágil, mas alguém que "entra sozinho", e mais- "em nossa casa". Ou seja, ele veio do exterior, esmagou a flor do jardim, matou o cão que nos protegia e está dentro da nossa casa, na nossa outrora indevassável intimidade.

Reféns e imobilizados, estamos. O mais frágil avança: "rouba-nos a luz".Vejam, ele não "apaga", não "desliga", ele "rouba" e isto é mais violento, pois não "tira" apenas, mas se "apodera" de algo que é nosso e vital - a "luz", que pode ter vários significados: vida, consciência, capacidade de localizar-se, de ser e estar.

E como se isto não bastasse, aquele que veio pelo jardim pisando flores, matando o cão, apagando a luz, agora invade nosso corpo e num gesto de progressiva violência arranca-nos a voz da garganta". A expressão é bastante visual, é física com a presença da "garganta" violada e a sensação de pânico e dor.

E o poema termina inclementemente trágico: "E já não podemos nada".
Dito isto o leitor é abandonado em sua impotente solidão.

NOTA DO EDITOR DO BLOG - Quem quiser conhecer na íntegra o poema "No caminho com Maiakovski", pode acessar a postagem feita aqui mesmo no blog, só clicar aqui:
http://ademirbacca.blogspot.com/2006/02/injustia-literria-maior-injustia.html

9 comentários:

Nadilce Beatriz disse...

O texto que transcreves possui uma realidade intensa, dolorida que nos tange a alma nos dias atuais.
Assim eu diria, que é o que vemos e sentimos através de nossas janelas, sejam elas de um porão ou do 45º andar, de um prédio qualquer.
Grande abraço.
Nadilce Beattriz

Miriam de Sales Oliveira disse...

Fantástico texto e muito oportuno o aproveitamento do texto poético do grande Maiakovsky.
E,para temperar ainda mais esse blog,encontro minha amiga Nadilce p/ aqui.
Abç

beneditocglima disse...

É sempre maravilhoso adentrar em seu espaço e sorver os mais belos textos.Parabéns amigo,aproveito para lhe informar que estou com um novo email beneditocglimma@yahoo.com.br Me envie material.obrigado

Tatamirô Grupo de Poesia disse...

De um nihilismo passivo, mas belo...

Blog da Janete disse...

Uau!
E eu que tudo sabia...aprendi que nada sei.
Quem sabe, sabe!!!
Texto impecável.
Faltam poucos dias para confrontar o escritor , aqui, bem perto.
Parabéns pelo blog, Bacca!

sonia albuquerque disse...

Puro texto lírico ,incisivo contundente.Ressoa fundo no peito do leitor que se sente profundamente traído,abandonado e impotente.

Ricardo Mainieri disse...

Este poema, de Eduardo Alves, e os Estatutos do Homem, do Tiago de Mello incediaram minha juventude. Eram gritos de revolta contra um tempo opressor, que surgiam, assim, clandestinamente, porém intensos.
Minha vontade de escrever poesia, surgiu da vontade de imitá-los. Admirava, e admiro, sua visceralidade, sua carga de humanismo embutido nos versos.
E o artigo de Affonso Romano, com maestria, quase didaticamente, vai nos mostrando os alicerces do fazer poético que, como disse Leminski, é um inutensílio.
Mas, experimente tirar este "inutensílio" da vida de nós que nos comunicamos com as Musas. Que vazio ficaria...
Bela escolha de patrono, Bacca.

Abração.

Ricardo Mainieri

MARILENE disse...

Uma bela tradução do texto que, por si só, é maravilhoso. Comumente citado , nem sempre produz essa tão clara interpretação.

Abços

Karla Julia disse...

Esse poema sempre me inspirou,ele me toca profundamente, chego a quase sentir realmente a dor do que é descrito. Gostei que ele fosse escolhido para análise. Uma análise clara, que ajudou-me aindamais a compreender o que é a dor de não ter feito nada para que algo não acontecesse( omissão, talvez?)