sexta-feira, maio 27, 2016



da remissão dos pecados

os poetas
passam
uma borracha
sobre
os seus maus
versos...

© Ademir Antonio Bacca
do livro “Grito por dentro das palavras”

sexta-feira, outubro 23, 2015



Um gaúcho na corte do rei
 ® Ademir Antonio Bacca

Pelé marcou o seu gol número 1090 depois de uma tabelinha que fez a torcida do Santos pensar que o rei do futebol tinha reencontrado seu companheiro Coutinho. Era o segundo gol do time santista contra o Boca Juniors, da Argentina, que a torcida venezuelana, mais de trinta mil pessoas nas arquibancadas, assistia em Caracas.

Só que tabelando ao lado de Pelé não estava o lendário camisa nove santista Coutinho e sim Lairton, centro-avante do Clube Esportivo Bento Gonçalves emprestado ao Santos. O mesmo Lairton que poucos meses antes havia marcado quatro dos cinco gols que o time de Enio Andrade aplicara no Grêmio de Oto Glória.

Contratado por empréstimo pelo Santos, Lairton apresentou-se na Vila Belmiro quando o time santista excursionava pelos Estados Unidos. Seu primeiro contato com Pelé & Cia., sem nenhum treino, foi naquele dia 25 de agosto de 1971, em Caracas.

No segundo tempo, Pelé retribuiria o passe e Lairton marcaria seu primeiro gol com a camisa do peixe.

Mas durou pouco o sonho do gaúcho de Santa Cruz na corte do rei. Ao fim do empréstimo, o Santos considerou muito alto o preço pedido pela diretoria do Esportivo pelo passe do atacante, que no ano seguinte defenderia o Grêmio e depois abandonaria o futebol para gerenciar um hotel em Santa Cruz do Sul.

* Do livro em preparo "Janelas da Memória"

quarta-feira, julho 08, 2015


E POR FALAR NO "BEATLES DAY"...

Fazendo algumas anotações para o papo que eu e Claudio Troian temos agendado para a tarde da próxima sexta-feira no Instituto Federal, sobre o sacode que os Beatles deram na nossa geração aqui em Bento e na região, me deparo com aquela situação comum que muitas vezes acontece a qualquer um de nós, o tal do questionamento "...E SE?" 
Sim, se eu tivesse ido, se eu tivesse dito sim (ou não), se eu tivesse apostado... e por aí vai. 
No caso deste momento, nesta tarde fria e chuvosa, duas são as questões, ambas ligadas aos Beatles: 
1 - E se Stuart Sutcliffe, o Stu, ao invés de escolher o amor de Astrid Kirchherr e abandonado os Beatles em Hamburgo tivesse permanecido na banda? ... 
2 - E se Pete Best não tivesse sido substituído por Ringo Starr? 
Stu não viveu o suficiente para ver o sucesso dos seus amigos e morreu um dia antes do retorno dos Beatles a Hamburgo. 
Pete Best carrega até hoje a mágoa de ter sido excluído da banda por seus amigos. Muitos se referem a ele como 'o quinto beatle', outros dizem que o quinto seria "Briam Epstein", mas para Lennon o quinto beatle sempre foi "Stu", por quem muitos biógrafos garantem que ele nutria uma paixão platônica.

quinta-feira, junho 25, 2015


O RIO GRANDE PERDE UM DOS SEUS MAIORES TALENTOS

Morreu em Porto Alegre, na noite desta quarta-feira, o tradicionalista, pesquisador, compositor e radialista ANTONIO AUGUSTO FAGUNDES, ou apenas Nico, como ele preferia ser chamado, autor, entre outras, de "Canto Alegretense", uma das músicas mais gravadas no sul do país.
Nascido na localidade de Inhanduí, no interior de Alegrete, em 1934, tornou-se uma das figuras de maior referência do tradicionalismo gaúcho e era reconhecido como uma das maiores autoridades em folclore do Rio Grande do Sul.
Tive o prazer de desfrutar da sua amizade e de conviver com ele em diversas oportunidades especiais. Numa delas, involuntariamente fui o causador da sua reaproximação com o poeta Mario Quintana, seu conterrâneo, com quem ele estava rompido havia muitos anos. O motivo da desavença havia sido uma declaração infeliz do poeta de que aqueles que nasciam em Alegrete ou "eram fazendeiros ou eram bois". Nico ficou injuriado e dizia as quatro ventos que era do Alegrete e não era nem fazendeiro e nem boi. Indignado, havia riscado o nome de Quintana da sua lista de amigos.
Em 1988, estávamos prestes a inaugurar a Biblioteca de Serafina Corrêa e havíamos decidido batizá-la com o nome do grande poeta. Agendei um encontro com ele e - sem imaginar que eles estivessem rompidos - convidei o Nico para nos acompanhar. 

A princípio ele recusou:
- Tô de mal com aquele velho!
Meia hora depois me ligou dizendo que iria:
- Ele já está passado nos anos e não quero que ele morra sem fazer as pazes com ele.
E então fomos: eu, ele e a sua namorada na época, Guiga, com quem ele viria a casar poucos meses depois, mais Jonalda Fornari, então Secretária de Educação de Serafina Correa e o poeta Rossyr Berny.
Foi bonito ver o abraço de reconciliação que Nico e Quintana trocaram naquela manhã fria de inverno em Porto Alegre, numa manhã que me foge a data, mas com certeza o mês era junho de 1988. Abaixo o flagrante do momento em que Mario Quintana lia o decreto que dava o seu nome à Biblioteca Municipal da cidade onde nasci.

sexta-feira, maio 29, 2015




VIDA E MORTE

© SÉRGIO NAPP
1939 – 2015

Então isto é a vida: esta faixa rajada de vermelho que encerra o dia? Este resto de arco-íris depois da chuva mansa? A aragem embalando as folhas que se desprendem das árvores nas calmas manhãs de sol? E o homem a que responde a tudo isto? Deixa-se em contemplação? Mede-se o seu espanto pela alegria ou pelo medo? O que é o medo? Algo que não se pode medir? Um ponto escuro em que os olhos se fecham para que nada se veja? A morte?

Ah, a morte, em que momento ela se confronta com a vida? Em que momento elas disputam a primazia sobre o corpo à sua frente? Serão inimigas? A vida é mais harmoniosa, embora, sem dúvida, a morte seja a mais forte. O homem se assusta com a morte e tenta, de todas as formas, lhe escapar. A morte o cerca de forma inexorável. A morte possui toda a paciência do mundo. Com a paciência, que só ela possui, o espreita, enquanto apara as unhas e corrige as cutículas.

Pesquisas demonstram que se escrevermos sobre nossas aflições e nossa possibilidade de morrer, a vida tem uma chance. Pequena, claro, mas enfim.

E sobre o que deveremos escrever? Experiências, dores, medos, ambiguidades? Depende de cada um. De como sentimos a proximidade desta senhora. Você tem um câncer? Escreva. Tem uma cardiopatia grave? Escreva. Dizem que o fato de escrever sobre ou não, diminui as possibilidades. Em tese, ela não me assusta, pois o caminho é inexorável. Entretanto, as circunstâncias nos fazem refletir. A vida sempre estará por perto nos dando uma esperança. A morte, não. Não há esperanças na morte.

Neste momento ela é meu tema (talvez porque eu a adivinhe?), enquanto amanhã, quem sabe, considere este tema uma grande bobagem. Quem sabe, seja uma radiosa manhã de sol e eu saia para um passeio de bicicleta. Quem sabe, logo adiante, ela se ponha à minha frente?

Estamos sempre entre uma e outra, queiramos ou não.

Morrer de repente é o prazer do homem, viver é seu objetivo.

A morte anda, a morte é.

E a vida?

O que cada uma nos reserva não sabemos e, se soubéssemos, o sentido entre elas perderia importância.