
Uma das mais fortes vozes da poesia goiana calou-se na manhã de ontem, dia 15, em um hospital de Goiânia. Aldair Aires era um dos poetas goianos contemporâneos mais premiados nos últimos anos e um ser humano de múltiplas virtudes.
Tive o prazer de conviver com ele momentos inesquecíveis de poesia, de boemia e de conversas jogadas fora, seja em Goiânia ou aqui em Bento Gonçalves, em suas duas vindas ao Congresso Brasileiro de Poesia.
Quando esteve aqui em casa, trouxe-me não apenas jabuticabas colhidas no quintal de sua casa em Silvânia, como também uma garrafa do finíssimo licor que fazia e também uma garrafa de pinga goiana lindamente trabalhada e com poeminhas meus impressos no rótulo.
Aldair tinha uma consideração pela minha poesia que muitas vezes me deixava constrangido. Via em meus versos qualidades que por vezes eu achava que beiravam o exagero.
Escreveu críticas sobre meus livros “Pandorgas ao Vento” e “Plano de Vôo” e estava escrevendo o prefácio de “O Relógio de Alice” que não sei se chegou a concluir.
Sei sim da sua alegria com meus versos de quando recebeu o original do livro e meu pedido para que o prefaciasse. Em e-mail emocionado falou-me do quanto gostara do livro e pela primeira vez anunciou sua luta contra o câncer. Mas estava otimista e até brindou-me com um poema sobre o momento da chegada do meu original, que divido com vocês e faz parte desde já dos meus tesouros mais caros.
Foi-se o poeta, mas fica a sua poesia a imortalizá-lo nas letras goianas. Foi-se o amigo, mas ficam momentos belíssimos para aquecer as noites de saudade que virão.
O CORREIO E SUAS ASAS.
© ALDAIR AIRES
Nada de nada
Num corpo sonolento
De espantos e tédios.
Nada de nada
Numa cabeça entorpecida
Ainda pelos sons da máquina
metralhando raios em suas carnes,
em busca do que se esconde
no provável incerto
do que se teme.
De repente, o carteiro.
E seu sorriso e suas mãos
E uma caixa lacrada.
De Quê? De Quês?
O conteúdo no encoberto
De que seria? O que seria?
E interrogações ganharam asas
Giravam e giravam e giravam
Cirandas em torno e dentro
Da cabeça encharcada de abismos.
Um rasgo no invólucro
E um jorro cachoeirou de poesia
Corpo e alma e tudo, num desvario
Orgástico de vida.
Bacca abarcou a tarde morna
e fez ressurgir, nos nadas de então,
uma tênue e doce esperança
com a força de seus versos
e o Relógio de Alice estribilhou:
é hora de sentir a beleza da vida,
é hora de viver a grandeza da vida,
é hora de amar a poesia da vida.











