sexta-feira, abril 02, 2010


EMBRIAGAI-VOS


É necessário estar sempre bêbado. Tudo se reduz a isto: eis o único problema. Para não sentirdes o fardo horrível do Tempo, que vos abate e vos faz pender para a terra, é preciso que vos embriagueis sem tréguas.
Mas – de que? De vinho, de poesia ou de virtude, como achardes melhor. Contando que vos embriagueis.
E, se algumas vezes, sobre os degraus de um palácio, sobre a verde relva de um fosso, na desolada solidão do vosso quarto, despertardes, com a embriaguez já atenuada ou desaparecida, perguntai ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que rola, a tudo o que canta, a tudo o que fala, perguntai-vos que horas são; e o vento, e a vaga, e a estrela, e o pássaro, e o relógio hão de vos responder:
- É hora da embriaguez! Para não serdes os martirizados escravos, do Tempo, embriagai-vos; embriagai-vos sem cessar! De vinho, de poesia ou de virtude, como achardes melhor.

BAUDELAIRE
1821 - 1867
dos reencontros

o teu abraço
acende em mim
um velho lampião
de lembranças

tanta saudade
do teu cheiro
que a vida até parecia
ter perdido a graça

© Ademir Antonio Bacca
do livro “Grito por dentro das palavras”
Arte: Ismael Roldan

“Nossa vida nada mais é
que um curto circuito de luz
entre duas eternidades
de escuridão”.

VLADIMIR NABOKOV
1899 - 1977

Arte: Liberati
ÁGUA POR TODOS OS LADOS

© D. HELDER CÂMARA
07/02/1905 – 27/08/1999

Nem sombra de margem...
Nem sombra de sombra de terra...
Nem sombra de sombra de homens...
A quem entregarei
o ramo de oliveira
que o Pai me encarrega
de entregar
a quem o segure,
e plante,
e dele cuide
como a árvore de paz!?...

Arte: Roberto Bérgamo


PIOLIN — Comemora-se o Dia do Circo no dia 27 de março, em homenagem ao palhaço brasileiro Piolin, que nasceu nesta data na cidade paulista de Ribeirão Preto, no ano de 1897. Considerado por todos que tiveram o privilégio de vê-lo em ação um grande palhaço, Piolin se destacava por sua enorme criatividade cômica e por suas habilidades como ginasta e equilibrista. Seus contemporâneos diziam que ele era o pai de todos os que, de cara pintada e colarinho alto, sabiam fazer o povo rir. Pode-se dizer que as artes circenses surgiram na China, onde foram descobertas pinturas de quase 5.000 anos, nas quais aparecem acrobatas, contorcionistas e equilibristas. A acrobacia era uma forma de treinamento para os guerreiros, de quem se exigia agilidade, flexibilidade e força. Com o tempo, a essas qualidades se soma a graça, a beleza e a harmonia. O circo sempre, através dos anos, encantou crianças, jovens e adultos, seja como forma de diversão ou de educação.
Tempos atrás, fui autografar na Feira do Livro de Ribeirão Preto e tive o prazer de me hospedar na casa da escritora JAIR IANNI. Ali conheci o projeto da biografia de Piolin a que ela se dedicava há muitos anos. A partir de então também passei a acompanhar a sua luta pela publicação do livro, o que só viria a acontecer muito tempo mais tarde.
Por uma daquelas coincidências da vida, ainda naquela minha primeira estada em Ribeirão Preto, levado pela artista plástica Marina Zamboni Braghetto, fui a Batatais conhecer os famosos murais de Portinari na catedral, cuja cúpula foi projetada pelo pai de Marina, o arquiteto italiano Carlo Zamboni. Quem nos ciceroneou na visita foi um pintor local, Roberto Bérgamo, que também tem mural no interior da catedral.
Alguns anos depois, finalmente recebi o livro de JAIR IANNI e para minha surpresa e alegria, as ilustrações do mesmo, geniais por sinal, são assinadas por Bérgamo. O resultado foi um livro gostoso de se ler e muito bonito de se ver.
A propósito, Jair ocupa a cadeira nº 29 na Academia de Letras e Artes de Ribeirão Preto, que tem como patrono ABELARDO PINTO, ou, se preferirem, simplesmente PIOLIN, o maior palhaço brasileiro de todos os tempos.
das agonias

E se o palhaço
rir na hora errada?
E se o equilibrista
estiver embriagado?
E se o domador
borrar as calças?
E se o mágico
sumir do mapa?
E se o eleitor
pensar duas vezes
antes de votar?
E se o atirador de facas
não encontrar as lentes de contato?
E se o malabarista
trocar as bolas?

O que será de todos nós
se o sonho cair do trapézio?

© Ademir Antonio Bacca
do livro “Panis et Circenses”

sábado, março 13, 2010

Arte: "Masque Rouge" © Juan Alberto
lições do arame

equilibrar a paixão
no fio de arame
me ensinou os atalhos
da vida
passo
a
passo

descobri
que a emoção
não se equilibra
com a voz do coração

do alto do arame
a vida ensina
que o que mais importa
não é o amor
e sim,
não errar o passo

© Ademir Antonio Bacca – do livro “Grito por dentro das palavras”
se é só a tua lembrança
que me visita
nas madrugadas insones
então, por que
o sabor dos teus lábios
na minha boca
todo amanhecer?


© Ademir Antonio Bacca – do livro “Grito por dentro das palavras”

das coisas em que acredito

até aonde meus olhos
alcançam
eu acredito em tudo
aquilo que eu vejo

dali em diante
acredito em tudo
aquilo que imagino


© Ademir Antonio Bacca – do livro “Grito por dentro das palavras”
Arte: “Crianças no futuro” © Sevket Yalaz
as pedras da memória – canto um

Para o Badoga

percorro o mapa da cidade
com a pressa daqueles
que desvendam
o corpo da mulher amada
pela primeira vez

busco velhas lembranças
que num tempo qualquer
deixei para trás
quando saí em busca
do tesouro escondido
atrás do teu olhar

percorro os labirintos da memória
com a angústia daqueles
que sabem que os ponteiros das horas
não andam para trás

onde a velha casa
que abrigou nossos sonhos?
onde a batida na bigorna
que orientava nossos passos?

percorro o mapa da cidade
com a dor daqueles
que descobrem que a cidade
nunca mais cantará
a nossa canção

© Ademir Antonio Bacca – do livro “O Relógio de Alice”

as pedras da memória – canto 2

Para Jayme Cimenti

te recordas, amigo,
desta rua
que agora corre
com mais pressa
do que corria
nos nossos verdes anos?

quantos sonhos lapidamos
em cada esquina
da velha cidade
que não existe mais?

tanto tempo que se foi,
tantos de nós que não voltaram
e nem por isso
nos deixamos embrutecer!

ainda recordo, amigo,
da vida que corria
por esta rua
e um dia começou, aos poucos,
a nos escapulir

de cada sonho
que amanheceu fora de hora
guardo o gosto de sal;
de cada abraço de despedida,
o amargo de nunca mais

te recordas, amigo,
dos amigos que se perderam
no fim desta rua?

quantos ainda saberão
que os vestígios da nossa infância
continuam gravados
na memória das pedras
da velha cidade
que ainda resistem
aos novos tempos?

têm pressa as ruas
da nova cidade, amigo

correm ao encontro
do tempo que virá,
mas sabem que nas suas pedras
estarão cimentados para sempre
os nossos sonhos de meninos.


© Ademir Antonio Bacca – do livro “O Relógio de Alice”

as pedras da memória – canto 3

Para Leila Pasquetti

não é tristeza
que traça o mapa
da velha cidade
que ainda se desenha
dentro de mim.

só saudade do que ela
foi um dia

© Ademir Antonio Bacca – do livro “O Relógio de Alice”

segunda-feira, maio 11, 2009

Arte: Olbinski

encantamento

contemplo em silêncio
teu corpo inerte
que o claro de lua
revela
na noite insone

nenhum galo cantor
nenhuma música vindo de longe
a quebrar o encanto dos meus olhos

só o silêncio
e o movimento
dos meus dedos
desenhando o mapa
do teu corpo

© Ademir Antonio Bacca
do livro: “Grito por dentro das palavras”

Arte: Fraga
“Não faço poesia
quando quero
e sim quando ela,
poesia, quer.”

MANUEL BANDEIRA
(19/04/1886 – 13/10/1968)