domingo, fevereiro 19, 2006

POEMAS QUE GOSTO (9)

Estávamos preparando a segunda edição do Congresso Brasileiro de Poesia e o poeta pernambucano Carlos Barros, idealizador dos projetos “Poesia na Vidraça” e “Pitangueiras Poéticas”, me mandou uma reportagem publicada no Jornal do Comércio intitulada “A trajetória do poeta: de garçon a governador”. Era a trajetória de RONALDO CUNHA LIMA, recém eleito governador dao Estado da Paraíba, que atendeu prontamente nosso convite e foi uma das atrações em Nova Prata naquele ano de 1991. Autor de poemas belíssimos, sinceramente eu gostaria de ter escrito este:


ERA SEGUNDA IMAGINEI DOMINGO


Era segunda, imaginei Domingo.
Era de noite, imaginei manhã.
Chovia muito e eu imaginava sol.
As pessoas se comprimiam e eu não via nada.
Havia multidão e eu me sentia só.

Você não estava, mas eu a fiz presente.
Você chegava sem saber se estava,
Você falou sem saber o que disse
E disse coisas sem dizer palavras.

Você estava perto sem saber se estava
E até beijou sem se sentir beijada
Era segunda e imaginei domingo.

Chegou o sol e se fez manhã,
Chegou o dia e se fez domingo.
Houve palavras, mas não eram suas.
Houve presença, mas sem ser você.
Houve multidão e agitação profunda.

Então, era manhã e eu quis a noite.
Fazia sol e eu queria chuva.
Era domingo e desejei segunda.

RONALDO CUNHA LIMA
POEMAS QUE GOSTO (8)
Eu e Rossyr Berny estreamos em livro no mesmo ano e fomos aproximados por um amigo em comum, Antonio Luis Picolli. De lá para cá construímos uma amizade sólida em que pese ele ter o defeito quase que imperdoável de ser gremista. Uma das vozes mais forte da poesia social do Rio Grande do Sul, é autor de poemas que qualquer poeta que se preze gostaria de ter escrito. Eu, particularmente, gosto muito deste:


CINZAS NA LUZ


iguais meninos que vendem doces
mas andam amargos
os homens estão escuros

cabisbaixos
mas em decididas procissões
vão aos armazéns comprar cordas

testam a resistência
e pela primeira vez não perguntam o preço

na última compra de caderno
mandam enrolar os necessários metros

para nunca mais deverem nada


ROSSYR BERNY

Eu olho a vida
sem os óculos
que me acompanham
ao longo dos últimos anos.

E assim,
poeta que penso ser,
sem a ajuda de lentes
vejo o mundo com as cores
que meus olhos gostariam de ver.

Eu olho a vida
com imensa saudade
do que ela se mostrou
por inteira
um dia
aos meus olhos de criança.


® Ademir Antonio Bacca
do livro: “Pandorgas ao Vento”

sábado, fevereiro 18, 2006


DELÍRIOS DE UMA NOITE DE VERÃO 1
Técnica: Arte Digital - Programa utilizado: Photoshop

POEMAS QUE GOSTO (7)

Conheci Aldair Aires numa mesa de bar. Foi em Goiânia no início dos anos 90, quando lá estive para receber uma homenagem da UBE/GO e desde então sou fã de sua poesia, sem dúvidas uma das melhores do estado goiano, terra de tantos poetas maravilhosos. Mestre também do artesanato, prepara uma galinha com pequi digna dos versos de Neruda. Entre tantos poemas seus que gosto, divido com vocês este:


O (BAR) CO

Este bar me abarca
E neste barco
Navego as ilusões
Que nunca se aportam
Pois não há porto
Nem porta
Nesse desabar
De desamor


ALDAIR AIRES
POEMAS QUE GOSTO (6)

Descobri a poesia da paranense ANDREA MOTTA há pouco tempo, mas tempo suficiente para gostar do seu jeito de escrever. Gosto especialmente deste poema:

ENVELHECÊNCIA

As vezes sinto vontade
de vestir-me de ontem,
jeans surrado,
regata colada ao corpo

E perambular pelo amanhã
como se não houvesse senões.

ANDREA MOTTA
DO TEU SABOR


O gosto da tua pele
sal impregnado em meus lábios
que me mata de sede
à beira da fonte dos teus prazeres.

O teu gosto na minha boca
mel que sacia meus desejos
na hora derradeira
do medo de te perder
em meio aos lençóis.

O teu cheiro impregnado
no meu corpo
perfume raro que nem a chuva
leva de mim...


® Ademir Antonio Bacca
* do livro “Pandorgas ao Vento”

Já que vamos entrar na semana do carnaval, deixo aqui um fractal que fiz em homenagem às folias momescas no carnaval de 2004

quinta-feira, fevereiro 16, 2006


Minha mãe trouxe da roça o hábito do plantio. Na cidade, dentro dos limites da sua casa, aproveitou cada palmo de terra para plantar flores de todas as espécies. No tronco de árvores frutíferas enxertou mudas de orquídeas e pelos canteiros misturou toda semente que lhe caiu nas mãos. O colorido em torno da velha casa dela sempre me chamou a atenção - até plantei duas 'três marias' que me dão uma trabalheira e me esfolam mãos e braços com seus espinhos pontiagudos. Dia desses, máquina fotográfica em punho, resolvi fotografar a Dona Precedina em meio a suas flores. Divido com vocês um pouco das cores que captei.
CIÚMES

SUELY DE FREITAS MARTÍ

O passado é um intruso
que invade a minha casa
e dorme na minha cama.
muro

não lembro ao certo
quando o muro foi erguido.

foi surgindo aos poucos,
uma palavra áspera aqui,
um descaso acolá
e quando percebemos,
estava pronto.

e desde então,
tem nos dividido ao meio.


Ademir Antonio Bacca
* do livro “Plano de Vôo”

ESTUDO DA SOLIDÃO 002
Técnica: Fractal - Programa usado: Ultrafractal 3

Falar no Edival Perrini, ele reclama a não postagem aqui neste espaço de dois poeminhas meus que estão no livro "Pandorgas ao Vento", que ele diz gostar muito. Vamos a eles então:
*
FONTE DE LUZ

a minha loucura
vem da nascente
dos seus olhos.
*
NÃO HÁ PRESSA

o coração dispara,
mas o verso espera.
POEMAS QUE GOSTO (5)
Oscar Bertholdo (1935-1991) dizia que a melhor parte do poema era enxugá-lo, tirar seus excessos. O poema curto sempre atraiu minha preferência e fez com que eu passasse a admirar muitos poetas brasileiros. Entre eles, EDIVAL PERRINI, de Curitiba, que sabe dizer tudo em três ou quatro versos. Este poema dele é um dos que não canso de ler.
*
VÉRTICE

homem em pé sobre a canoa
pesca a manhã de cada dia,
noventa graus de poesia.

EDIVAL PERRINI

quarta-feira, fevereiro 15, 2006


“A poesia é sempre
um ato de paz.
O poeta nasce da paz
como o pão nasce da farinha.”

Pablo Neruda

RELÓGIO

OSWALD DE ANDRADE

As coisas são
As coisas vêm
As coisas vão
As coisas
Vão e vêm
Não em vão
As horas
Vão e vêm
Não em vão
TANGO 1 by adebach/2001


TANGO 2 by adebach/2001

Alguém já prestou atenção nos movimentos dos pés de um dançarino de tango?
Numa madrugada qualquer do ano de 2001 escutava Astor Piazzolla e de repente me descobri tentando imaginar como ficariam os pés de um dançarino no dia seguinte. E aí nasceram estas duas artes digitais, com a ajuda do Photoshop. Primeiro o pé direito, depois o esquerdo.
POEMAS QUE GOSTO (4)
Do grande círculo de poetas com quem tenho o prazer de conviver, SUELY DE FREITAS MARTÍ tem um lugar especial na minha galeria de afetos. Acompanho sua trajetória desde os primeiros versos e digo sem o menor receio que pouca gente neste Brasil escreve tão bem quanto ela. Hoje acordei com este poeminha dela na cabeça e reparto-o com vocês:
*
sob a memória da pele
tuas mãos persistem
devassando inconfessáveis desejos.

(SUELY DE FREITAS MARTÍ)

terça-feira, fevereiro 14, 2006

Plantio


Não jogo sementes
por sobre a terra revolta,
num gesto mecânico e cansado
de quem planta
só porque mandaram plantar.

Planto as minhas sementes
como se fosse um ato de amor
e me entrego a este plantio
como se desse gesto dependesse
o meu gozo.

Semeio sonhos
sem medo nenhum
de colher tempestades.
*
Ademir Antonio Bacca
* do livro "A Tragédia dos Anjos"
POEMAS QUE GOSTO (3)
Já conhecia a poesia da Valéria Tarelho das agendas da Tribo. No ano passado ela esteve no Congresso Brasileiro de Poesia e eu que já gostava do trabalho dela, virei fã de carteirinha. Este poema fez muito sucesso no projeto "Poesia na Vidraça" aqui em Bento Gonçalves:
*
arte sã

homem é um bicho esquisito:
caça, come, joga fora a carcaça
mulher tem outro instinto:
escolhe, leva para casa, usa...

e com a sobra dos ossos
faz um par de brincos

VALÉRIA TARELHO