poeta, escritor, contista, jornalista, radialista, pesquisador e produtor cultural
terça-feira, fevereiro 14, 2006
POEMAS QUE GOSTO (2)
Conheci Lucia Koury em Belo Horizonte no ano passado, no 1º Belô Poético, organizado pelo Rogério Salgado. Do seu belíssimo livro "Desabusos", divido com vocês este poema:
Página Marcada
O corpo da mulher madura
Tem pneuzinho nas costas,
Gordurinha na barriga
Celulite nas coxas.
Mas também tem
Tanta curva,
Tanta história,
Tanta vida
Que dá até pra escrever um livro.
LUCIA KOURY
O corpo da mulher madura
Tem pneuzinho nas costas,
Gordurinha na barriga
Celulite nas coxas.
Mas também tem
Tanta curva,
Tanta história,
Tanta vida
Que dá até pra escrever um livro.
LUCIA KOURY
POEMAS QUE GOSTO (1)
Todo mundo tá careca de saber que o Jiddu Saldanha é o maior mímico em atividade no Brasil, mas poucos sabem que por trás daquela máscara se esconde também um grande poeta (junto com o grande artista plástico, com o grande amigo y otras cositas mas). Sempre fui fã de poemas curtos e acho este dele sensacional:
*
Separação
meu amor,
quando você for se separar
de mim
me avise
que vou junto
JIDDU SALDANHA
meu amor,
quando você for se separar
de mim
me avise
que vou junto
JIDDU SALDANHA
segunda-feira, fevereiro 13, 2006
INJUSTIÇA LITERÁRIA
A maior injustiça literária conhecida no Brasil em seus quinhentos e tantos anos de história foi cometida - e ainda é, quase que diariamente - contra o poeta paulista EDUARDO ALVES DA COSTA. Um excerto do seu poema "No Caminho com Maiakovski" vem sendo, através dos anos, atribuído erroneamente ao poeta russo Vladimir Maiakovski. O mais estranho é que jornalistas e formadores de opinião já renomados cometem este erro - o mais recente foi o colunista do Jornal Zero Hora de Porto Alegre, David Coimbra - e mesmo quando alertados, não fazem a devida correção, dando o crédito do poema ao seu verdadeiro autor. Nunca se deram ao trabalho de verificar junto aos livros de Maikovski. Se o fizessem, não encontrariam o poema lá e teriam que engolir suas próprias palavras. Quem errou primeiro foi o escritor Roberto Freire, no livro "Viva eu, viva tu, viva o rabo de tatu".
Trata-se de um dos mais belos poemas já escritos e publicados no Brasil. Se algum dia você ouvir alguém atribuí-lo a Maiakovski, utilize a última palavra do próprio poema e grite: MENTIRA! Apresento aos que não conhecem, o poema na sua íntegra, ressaltando em vermelho o texto que virou um ícone na luta contra a ditadura e que popularizou Maikovski entre os estudantes e a esquerda brasileira, muito mais do que a sua excelente obra.
NO CAMINHO COM MAIAKÓVSKI
Eduardo Alves da Costa
Assim como a criança
humildemente afaga
a imagem do herói,
assim me aproximo de ti, Maiakóvski.
Não importa o que me possa acontecer
por andar ombro a ombro
com um poeta soviético.
Lendo teus versos,
aprendi a ter coragem.
Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na Segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.
Nos dias que correm
a ninguém é dado
repousar a cabeça
alheia ao terror.
Os humildes baixam a cerviz;
e nós, que não temos pacto algum
com os senhores do mundo,
por temor nos calamos.
No silêncio de meu quarto
a ousadia me afogueia as faces
e eu fantasio um levante;
mas amanhã,
diante do juiz,
talvez meus lábios
calem a verdade
como um foco de germes
capaz de me destruir.
Olho ao redor
e o que vejo
e acabo por repetir
são mentiras.
Mal sabe a criança dizer mãe
e a propaganda lhe destrói a consciência.
A mim, quase me arrastam
pela gola do paletó
à porta do templo
e me pedem que aguarde
até que a Democracia
se digne a aparecer no balcão.
Mas eu sei,
porque não estou amedrontado
a ponto de cegar, que ela tem uma espada
a lhe espetar as costelas
e o riso que nos mostra
é uma tênue cortina
lançada sobre os arsenais.
Vamos ao campo
e não os vemos ao nosso lado,
no plantio.
Mas ao tempo da colheita
lá estão
e acabam por nos roubar
até o último grão de trigo.
Dizem-nos que de nós emana o poder
mas sempre o temos contra nós.
Dizem-nos que é preciso
defender nossos lares
mas se nos rebelamos contra a opressão
é sobre nós que marcham os soldados.
E por temor eu me calo,
por temor aceito a condição
de falso democrata
e rotulo meus gestos
com a palavra liberdade,
procurando, num sorriso,
esconder minha dor
diante de meus superiores.
Mas dentro de mim,
com a potência de um milhão de vozes,
o coração grita - MENTIRA!
Eduardo Alves da Costa
Assim como a criança
humildemente afaga
a imagem do herói,
assim me aproximo de ti, Maiakóvski.
Não importa o que me possa acontecer
por andar ombro a ombro
com um poeta soviético.
Lendo teus versos,
aprendi a ter coragem.
Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na Segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.
Nos dias que correm
a ninguém é dado
repousar a cabeça
alheia ao terror.
Os humildes baixam a cerviz;
e nós, que não temos pacto algum
com os senhores do mundo,
por temor nos calamos.
No silêncio de meu quarto
a ousadia me afogueia as faces
e eu fantasio um levante;
mas amanhã,
diante do juiz,
talvez meus lábios
calem a verdade
como um foco de germes
capaz de me destruir.
Olho ao redor
e o que vejo
e acabo por repetir
são mentiras.
Mal sabe a criança dizer mãe
e a propaganda lhe destrói a consciência.
A mim, quase me arrastam
pela gola do paletó
à porta do templo
e me pedem que aguarde
até que a Democracia
se digne a aparecer no balcão.
Mas eu sei,
porque não estou amedrontado
a ponto de cegar, que ela tem uma espada
a lhe espetar as costelas
e o riso que nos mostra
é uma tênue cortina
lançada sobre os arsenais.
Vamos ao campo
e não os vemos ao nosso lado,
no plantio.
Mas ao tempo da colheita
lá estão
e acabam por nos roubar
até o último grão de trigo.
Dizem-nos que de nós emana o poder
mas sempre o temos contra nós.
Dizem-nos que é preciso
defender nossos lares
mas se nos rebelamos contra a opressão
é sobre nós que marcham os soldados.
E por temor eu me calo,
por temor aceito a condição
de falso democrata
e rotulo meus gestos
com a palavra liberdade,
procurando, num sorriso,
esconder minha dor
diante de meus superiores.
Mas dentro de mim,
com a potência de um milhão de vozes,
o coração grita - MENTIRA!

Rio Grande
para/Ademir Bacca
do teu vinho eu quero a uva
e dela a casca a carne doce
o líquido escorrendo entre os dentes
o sabor gota por gota
colher as folhas
que florescem nos vinhedos
e se puder decifrar os teus segredos...
do rio grande
eu quero as tuas serras
nesta palavra que agora aqui encerra
o meu desejo
estradas vilas e encostas
percorrer tuas matas
tuas costas
na geografia sinuosa dos teus beijos
do teu povo
eu quero a gentileza
o que resume na real grandeza
da tua uva do teu vinho
o que desejo é só carinho
do teu vinho tua uva
eu quero a chuva
a água das tuas cachoeiras
o fluxo das tuas correntezas
esta cidade
que aprendi a conhecer
quando outubro chega
amar e bem-dizer
mesmo teu filho não sendo
nem sabendo do teu berço
do teu ninho
mas ao menos
querendo querendo querendo
estar em tua gente
porque neste momento a cada ano
mudamos nossa pele
refazemos nossos planos
e como hóstia
consagrada em nossa boca
na mais santa eucaristia
celebramos o amor do ser humano
em taças de vinho e poesia
artur gomes
14 setembro 2005
para/Ademir Bacca
do teu vinho eu quero a uva
e dela a casca a carne doce
o líquido escorrendo entre os dentes
o sabor gota por gota
colher as folhas
que florescem nos vinhedos
e se puder decifrar os teus segredos...
do rio grande
eu quero as tuas serras
nesta palavra que agora aqui encerra
o meu desejo
estradas vilas e encostas
percorrer tuas matas
tuas costas
na geografia sinuosa dos teus beijos
do teu povo
eu quero a gentileza
o que resume na real grandeza
da tua uva do teu vinho
o que desejo é só carinho
do teu vinho tua uva
eu quero a chuva
a água das tuas cachoeiras
o fluxo das tuas correntezas
esta cidade
que aprendi a conhecer
quando outubro chega
amar e bem-dizer
mesmo teu filho não sendo
nem sabendo do teu berço
do teu ninho
mas ao menos
querendo querendo querendo
estar em tua gente
porque neste momento a cada ano
mudamos nossa pele
refazemos nossos planos
e como hóstia
consagrada em nossa boca
na mais santa eucaristia
celebramos o amor do ser humano
em taças de vinho e poesia
artur gomes
14 setembro 2005
domingo, fevereiro 12, 2006

O meu Mario Quintana preferido
Este é o ano em que comemoramos o centenário de nascimento do poeta Mario Quintana. Tive a honra de ter o grande poeta como padrinho no lançamento do meu primeiro livro, em parceria com Jovino Nolasco de Souza e Vania Elizabeth Larentis (hoje Pedralli). Foi a única vez que Mario esteve em Bento Gonçalves. Depois ele nos honrou com sua presença no lançamento do livro "Boca do Mundo" (meu e da Vânia), na Livraria Coletânea, em Porto Alegre. Em 1988, A Fundação Serafinense de Cultura, da qual eu era presidente, homenageou-o dando seu nome a Biblioteca Pública de Serafina Correa. Foi o último contato que tive com o poeta, juntamente com a então Secretária Municipal de Educação e Cultura, Jonalda Fornari Soccol.
De uma obra magnífica, o meu poema preferido de Quintana é
EU OUÇO MÚSICA
Eu ouço música como quem apanha chuva:
resignado
e triste
de saber que existe um mundo
do Outro Mundo...
Eu ouço música como quem está morto
e sente
já
um profundo desconforto
de me verem ainda neste mundo de cá...
Perdoai,
maestros,
meu estranho ar!
Eu ouço música como um anjo doente
que não pode voar.
MARIO QUINTANA
30/07/1906 05/05/1994

A cadeira de Hemingway
A Bodeghita del Medio é uma das grandes atrações de Havana. Com suas paredes cheias de mensagens que aproximam turistas de todo o mundo entre um 'mojito' e um "daiquiri", tudo sob a cadeira do grande escritor, devidamente presa no teto. É como se ele brindasse com todos lá de cima. Arrepiante.
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