quarta-feira, dezembro 14, 2011


toda palavra

toda palavra
guarda um segredo
atrás de suas portas
secretas

esconde
na entrelinha
o enigma da criação

delicada
afiada
malcriada
debochada
discreta
poética
patética
a palavra pode tudo
e bebe
o sangue do poeta
em goles demorados

II

toda palavra
é arma engatilhada

pontaria precisa
acerta o coração
mesmo quando
é bala perdida

certeira
traiçoeira
vingativa
maligna
indiscreta
abusada
despretensiosa
maliciosa
a palavra
pode quase nada
quando fala de paz

© Ademir Antonio Bacca

quarta-feira, novembro 16, 2011

Arte: Lézio Júnior

“Letra a letra, palavra a palavra,
página a página, livro a livro,
tenho vindo, sucessivamente,
a implantar no homem que fui
as personagens que criei.”

JOSÉ SARAMAGO
1922 - 2010
tem gente que tem fome
tem gente que tem pressa
tem gente que tem sede
tem gente que tem sonhos
tem gente que tem medo
tem gente que não cala
tem gente que ganha na loteria
tem gente que é pura falta de sorte
tem gente que é ponte
tem gente que é muro
tem gente que abre caminhos
tem gente que fecha portas
tem gente que é saudade
tem gente que é bicho

© Ademir Antonio Bacca
do livro “O grito por dentro das palavras”
Arte: Agim Sea

utopia

um ninho
de sonhos ousados
e nenhuma lei
permitindo a caça.

© Ademir Antonio Bacca

um galo
desperta a manhã
ao longe
e seu canto mexe
sem querer
no baú de lembranças
do poeta desavisado
que não ousava imaginar
galos anunciando madrugadas
em meio a blocos de concreto.

© Ademir Antonio Bacca
Infelizmente, desconheço o autor deste belíssimo poema

tem dias
que da vida
não se tira
nem poesia.

© Ademir Antonio Bacca