sábado, outubro 15, 2011


meu jeito bêbado de ser

tenho medo de ser atropelado
com uma lata de cerveja na mão
mas não seria bom
para a minha biografia
ser atropelado
sem uma lata de cerveja na mão

© JOVINO MACHADO
belo horizonte / mg
meu
poema
tem
dias
que
não
se
toca

besta,
pensa
que
é
música

© Ademir Antonio Bacca
da antologia “Poesia do Brasil” – vol. 14
Arte: Ernesto Priego

A nossa política é a do humor.
Todas as pessoas sérias
foram assassinadas.
 Nós queremos ser os palhaços
do mundo.”

JOHN LENNON
1940 - 1980

da fragilidade que me cerca

tudo o que me sustenta
é frágil:

o fio de arame
que me faz a travessia

a paixão
que me costura as horas

tudo o que me consola
é frágil:

os pedaços de lembranças
que me fogem entre os dedos

o abraço que não aquece o sonho
na noite de invernia

só a palavra é forte!

© Ademir Antonio Bacca
da antologia “Poesia do Brasil” – vol. 14
Arte: Fernandes

"Amar os outros
é a única salvação individual
que conheço;
ninguém estará perdido se der amor
e às vezes receber amor em troca."

CLARICE LISPECTOR
1920 - 1977

cena cotidiana

pensa que tem asas
o corpo
que cai do andaime

vôo improvisado
em trapézio de alto risco,
o corpo desenha no espaço
um risco de sangue
antes mesmo
de chegar ao chão.

© Ademir Antonio Bacca
da antologia “Poesia do Brasil” – vol. 14
do por que dos sonhos não recomeçarem

o fio de arame
que leva a vida
de um lado para outro
na madrugada
nunca  traz
o sonho de volta
ao seu ponto de partida

© Ademir Antonio Bacca
da antologia “Poesia do Brasil” – volume 14

terça-feira, agosto 30, 2011

POESIA NOS TEXTOS SIMPLES
© Affonso Romano de Sant'Anna

© Umberto Nicolinej
 
Como desentranhar poesia de textos aparentemente simples?
Levo para o curso COMO LER POESIA, o poema de Eduardo Alves da Costa "No caminho com Maiakovsky". O poema é longo, mas a sua parte mais conhecida, é assim:

Na primeira noite/ eles se aproximam/ e roubam uma flor/ de nosso jardim./ E não dizemos nada./ Na segunda noite,/ já não se escondem: / pisam as flores, / matam nosso cão, / e não dizemos nada. / Até que um dia,/ o mais frágil deles / entra sozinho em nossa casa,/ rouba-nos a luz, / e, conhecendo nosso medo, / arranca-nos a voz da garganta./ E já não podemos nada.

Alguém pode duvidar se este texto é poesia, pois não tem rimas. Os versos, no entanto, têm ritmo embora não tão regulares como num soneto. Mas onde a poesia?

Uma das característica da poesia é a repetição. E esse texto, tem várias, num crescendo. Mas além deste dado formal, há algo quanto ao conteúdo: o texto é uma parábola. Como os mitos, as parábolas fazem alusão, tratam indiretamente um assunto, tangem, como a poesia, o imponderável. E essa parábola, apresentada ritmicamente, deixa ao leitor o preenchimento de significados. De que se trata? De uma referência a regimes totalitários? À violência cotidiana? À invasão da privacidade na sociedade atual?

Vejamos o texto mais de perto.

Quem são esses "eles" que surgem logo no princípio? A primeira frase é muito informativa e dramática: "Na primeira noite eles se aproximam". Há uma oposição entre "eles" e "nós" (lugar onde está o leitor). Constrói-se uma narrativa temporal (sintética): pois à "primeira" sucede agora a "segunda" noite de tensão. E houve um avanço dos agressores, pois eles " já não se escondem". Portanto, aumentou a ameaça.

Há um crescendo trágico: evidencia-se a impotência do "eu" diante "deles". A agressividade vinda de fora é maior: "não se escondem, pisam as flores, matam nosso cão". Como a dizer que na primeira noite nós não vimos claramente a ameaça, mas na segunda, vemos, somos testemunhas, "in presencia". Não apenas "pisam", "matam" (houve uma progressão nesses verbos), ultrapassam o jardim onde está a nossa guarda: "o cão". E como as barreiras vão caindo, aquela frase que era anteriormente separada por um ponto "E não dizemos nada", na segunda repetição é separada por uma vírgula, como se esse "e não dizemos nada" virasse um hábito, uma consequência. A violência fica sintaticamente mais evidente. Da tensão do primeiro para o segundo dia, chega-se a "um dia" não determinado, mas pateticamente esperado.

Aí, a expressão "o mais frágil deles" - aumenta a humilhação do confronto. Não é apenas o desconhecido ou violento, que mata, senão "o mais frágil deles". Não apenas o mais frágil, mas alguém que "entra sozinho", e mais- "em nossa casa". Ou seja, ele veio do exterior, esmagou a flor do jardim, matou o cão que nos protegia e está dentro da nossa casa, na nossa outrora indevassável intimidade.

Reféns e imobilizados, estamos. O mais frágil avança: "rouba-nos a luz".Vejam, ele não "apaga", não "desliga", ele "rouba" e isto é mais violento, pois não "tira" apenas, mas se "apodera" de algo que é nosso e vital - a "luz", que pode ter vários significados: vida, consciência, capacidade de localizar-se, de ser e estar.

E como se isto não bastasse, aquele que veio pelo jardim pisando flores, matando o cão, apagando a luz, agora invade nosso corpo e num gesto de progressiva violência arranca-nos a voz da garganta". A expressão é bastante visual, é física com a presença da "garganta" violada e a sensação de pânico e dor.

E o poema termina inclementemente trágico: "E já não podemos nada".
Dito isto o leitor é abandonado em sua impotente solidão.

NOTA DO EDITOR DO BLOG - Quem quiser conhecer na íntegra o poema "No caminho com Maiakovski", pode acessar a postagem feita aqui mesmo no blog, só clicar aqui:
http://ademirbacca.blogspot.com/2006/02/injustia-literria-maior-injustia.html