sexta-feira, agosto 31, 2007

Arte: Baptistão
"Palavra puxa palavra,
uma idéia traz outra,
e assim se faz um livro,
um governo,
ou uma revolução,
alguns dizem mesmo
que assim é que a natureza compôs
as suas espécies".

MACHADO DE ASSIS
1839 - 1908
Arte: TV or not TV © ANGEL BOLIGÁN

do olhar que entristece a canção do rio

a água correndo
entre as pedras
entoa a canção triste
do rio
que segue o mesmo curso
de todos os dias

uma canção
que fala de vida e de morte
que lembra tristezas
e falta de sorte

a água que corre
entre as pedras do rio
se perde sempre
no fundo dos teus olhos
tristes

© Ademir Antonio Bacca
do livro “Grito por dentro das palavras”
bisturi

na madrugada
tem vezes
que a palavra
é faca de corte
a dissecar
as entranhas
da paixão

© Ademir Antonio Bacca
do livro “Grito por dentro das palavras”

segunda-feira, agosto 06, 2007

Arte: "Feeling of emptiness" © Ben Goossens

descuidado

tantas vezes abri a mala
no meio da rua
em busca de alguma coisa tua

uma fotografia
um bilhete
um objeto esquecido
ao acaso

mas,
descuidado,
toda vez
que abro a mala
no meio da rua
sempre me foge
alguma coisa
tua

Ademir Antonio Bacca
do livro “Grito por dentro das Palavras”
Arte: Achille Superbi

No dia 7 de agosto de 1957 a morte de Oliver Hardy deixava a infância de muitas gerações mais triste. Chegava ao fim a dupla humorística “O Gordo e o Magro” (Stan & Ollie), alegria das antigas tardes de matinês nos cinemas de todo o mundo. Stan Laurel era o magro. Hardy morreu aos 65 anos, em decorrência de problemas cardíacos.
balada para théo

digo,
meu filho,
que só sonhar
não constrói
vida alguma

é preciso arar a terra,
domesticar a semente
e fazer de cada amanhecer
um recomeçar

digo,
meu filho
que só palavras
não constroem
poema algum

é preciso moldar o barro
pacientemente
e tirar da emoção
a forma do dia ideal

digo,
meu filho,
que viver
não é só abrir a porta
e ir pela estrada
que se desenha
diante dos nossos pés

há que se equilibrar
a esperança
na linha do horizonte
e ensaiar cada passo
com a determinação
de um bailarino
em noite de gala
no teatro nacional

digo,
meu filho,
que é preciso regar
o sonho
com o orvalho
das manhãs de primavera
e semear amor
e esperanças de dias melhores
para que quando a noite
se fizer sombra
possamos todos
dormir em paz

© Ademir Antonio Bacca
do livro “O Relógio de Alice”
Arte: Kim
RACHEL DE QUEIROZ
17 de novembro de 1910
04 de novembro de 2003

No dia 3 de agosto de 1977, a escritora Rachel de Queiroz quebrou um tabu quase secular e tornou-se a primeira mulher a ser admitida na Academia Brasileira de Letras. Até então, a casa de Machado de Assis era reduto exclusivo masculino. A façanha da consagrada escritora cearense abriu portas para que anos mais tarde, Nélida Piñon presidisse a ABL.
das mãos quase vazias

barco
que não tem
aonde ancorar
trago comigo
míseros versos
pescados ao acaso
na nascente
dos teus dias.

© Ademir Antonio Bacca
do livro “Grito por dentro das Palavras”
Arte: Deano Minton
MARILYN MONROE
01 de Junho de 1926
05 de Agosto de 1962

Um dos maiores símbolos sexuais já produzidos por Hollywood, Norma Jean Baker Mortenson (Marilyn Monroe) nasceu em Los Angeles,Califórnia, e viveu parte da infância em orfanatos. Casou-se aos 16 anos, com James Dougherty, e aproveitou quando o marido serviu na 2ª Guerra para tentar a sorte no cinema. Começou com pequenas aparições em "O Segredo das Jóias" (1950) e "A Malvada" (1950), e despontou com "Só a Mulher Peca" (1952) e "Torrentes de Paixão" (1953). Depois, virou mito. Sua exuberância pode ser conferida em "Os Homens Preferem as Louras" (1953), "O Pecado Mora ao Lado" (1955) e "Quanto Mais Quente Melhor" (1959). Divorciada de James Dougherty, casou-se com o ex-jogador de beisebol Joe Di Maggio e com o dramaturgo Arthur Miller. Teve um romance com o ator francês Yves Montand durante as filmagens de "Adorável Pecadora" (1960), e teria mantido relações jamais esclarecidas com o então presidente John Kennedy e com seu irmão, Robert. A hipótese de que ela teria sido amante dos Kennedy ganhou força quando se constatou que sua casa foi vasculhada - supostamente por agentes da CIA - antes da chegada da polícia no dia em que morreu, devido a uma overdose de sedativos e barbitúricos. Mas não existem provas concretas, apenas suposições e depoimentos - alguns dos quais aparecem no documentário inglês "Marilyn e os Kennedy" (1985). No fim, a glamurosa loura de Hollywood morreu durante seu sono com a jovem idade de 36 anos em 05 de agosto de 1962. Elton John e Bernie Taupin escreveram uma vez sobre Marilyn, "A vela se apagou muito antes do que a lenda que ainda continua acesa". Sua "vela" pode ter se apagado, mas as chamas de Marilyn brilham mais forte do que nunca. (Fonte:
http://www.webcine.com.br ).
a poesia
quando acontece
risca um fósforo no céu
e quebra a monotonia
da noite do poeta

a poesia
quando acontece
abre portas no meio da noite
e levanta âncoras
sem dar a mínima
para a tempestade
que se anuncia
na noite do poeta

© Ademir Antonio Bacca
do livro “Grito por dentro das Palavras”

CARMEM MIRANDA
09-02-1909, Marco de Canavezes, Portugal
05-08-1955, Beverly Hills, Estados Unidos

Carmem Miranda marcou tanto com seu jeito de cantar, revirando os olhos, mexendo com as mãos e gingando com seus sorriso contagiante e a graça de seus trajes cheios de balangandãs que até hoje, cinqüenta e dois anos após sua morte, é o símbolo brasileiro mais conhecido no mundo. Mais do que uma voz, foi um fenômeno do show business norte-americano. Aportando nos Estados Unidos no início da Segunda Guerra Mundial, representou vivamente a terra desconhecida e exótica, cheia de coqueiros, bananas, abacaxis, atendendo às necessidades fantasiosas e consumistas do povo norte-americano e alcançando a glória e a fortuna. De volta ao Brasil, depois de um ano ausente, foi recebida sob vaias em um show no Cassino da Urca, que abriu cantando South American Way. Em resposta bem-humorada ao público, lançou logo em seguida novo show, “Disseram que Voltei Americanizada”, de Vicente Paiva e Luiz Peixoto. Nascida Maria do Carmo Miranda da Cunha, em Marco de Canavezes, em Portugal, veio com 1 ano para o Rio de Janeiro. Depois de apresentar-se em bares cariocas interpretando Carlos Gardel, aos 20 anos gravou seu primeiro disco, com músicas como “Não Vá Sim'bora” e “Se o Samba é Moda”, de Josué de Barros, e se apresentou pela primeira vez no rádio, com “Iaiá Ioiô”, também de Josué de Barros. Tornou-se famosa ao gravar a marcha carnavalesca “Pra Você Gostar de Mim” (Taí, 1931), de Jubert de Carvalho, que vendeu mais de 35 mil discos. Em meio aos foliões, participou, em 1933, de seu primeiro longa-metragem, o documentário “A Voz do Carnaval”, de Adhemar Gonzaga e Humberto Mauro. Seu último filme no Brasil foi lançado às vésperas do Carnaval de 1938: “Bananas da Terra”, de João de Barro, no qual interpretou pela primeira vez a música “O que é que a baiana tem?”, de Dorival Caymmi, lançando definitivamente para o sucesso tanto o compositor como sua baiana estilizada. Embarcou com o grupo Bando da Lua para os Estados Unidos, em 1939. Estreou na Broadway, cativando de imediato a crítica e o público norte-americanos. Quatro anos depois, fez seu melhor filme, “The Gang's All Here” (1943), dirigido por Busby Berkeley, no qual faz o número mais famoso: “The Lady in the Tutti-Frutti Hat”, cantando num cenário tropicalíssimo, com bananas gigantescas se movendo. Morreu no dia 5 de agosto de 1955, aos 46 anos de idade, vitimada por um ataque cardíaco. fonte: http://biografias.netsaber.com.br )
botando a cabeça na boca do leão

encaro
o teu olhar
mesmo sabendo
do desafio:

nem te decifro,
nem me devoras
e a vida segue
seu curso
no outro lado da rua.

© Ademir Antonio Bacca
do livro “O Relógio de Alice”
Arte: "Paisagem Brasileira", de Lasar Segall
LASAR SEGALL
1891 – 1957


Lasar Segall, artista plástico lituano, naturalizado brasileiro, nasceu em Vilna, Lituânia, no dia 21 de julho de 1891 e morreu em São Paulo, no dia 2 de agosto de 1957. De família judia, desde cedo manifestou interesse pelo desenho. Iniciou seus estudos em 1905, quando entrou para a Academia de Desenho de Vilna. No ano seguinte, mudou-se para Berlim, passando a estudar na Academia Imperial de Berlim, durante cinco anos. Mudou-se, a seguir, para Dresden, estudando na Academia de Belas Artes. Em fins de 1912, Lasar Segall veio ao Brasil, encontrando-se com seus irmãos, que moravam aqui. Realizou suas primeiras exposições individuais em São Paulo e em Campinas, em 1913, mas regressou à Europa. Fundou, com um grupo de artistas, o movimento "Secessão de Dresden", em 1919, realizando, a seguir, diversas exposições na Europa. Segall mudou-se para o Brasil em 1923, dedicando-se, além da pintura, às artes decorativas. Criou, entre outros, a decoração do Baile Futurista, no Automóvel Clube de São Paulo, e os murais para o Pavilhão de Arte Moderna de Olívia Guedes Penteado.
O Museu Nacional de Arte Moderna preparou um grande retrospectiva de sua obra em 1957, em Paris. Lasar Segall morreu nesse mesmo ano, de problemas cardíacos, em sua casa, aos 66 anos.
Foi aqui, que segundo ele, “conheceu o milagre da luz e da cor”.


da marca eterna

das marcas
que o tempo não apaga
a que dói mais
é a cicatriz
do sonho desfeito

ninguém vê
mas marca para sempre.

© Ademir Antonio Bacca
do livro “O Relógio de Alice”

sexta-feira, julho 13, 2007

Arte: "Mars et Vénus" © Juan Alberto
maturação

o vinho envelhece com o tempo,
palavras se acomodam

os homens amadurecem
no passar das horas,
paixões se fortalecem

poemas consolam homens envelhecidos
e o vinho reanima paixões acomodadas

os anos que amadurecem o vinho
nos tonéis das caves
e envelhecem os homens,
renovam as palavras do poema
que permanece intacto
na paixão que descreve

por mais que o amor
tenha bebido na mesma fonte
e também tenha se deixado envelhecer
junto com o vinho,
se a paixão for das boas
jamais será vencida pela pressa
dos homens

© Ademir Antonio Bacca
do livro “O Relógio de Alice”

Não te amo como se fosses a rosa de sal,
topázio ou flechas de cravos
que propagam o fogo.

Te amo como se amam
Certas coisas obscuras, secretamente,
Entre a sombra e a alma.

Te amo como a planta que não floresce
e leva dentro de si, oculta,
a luz daquelas flores...

E graças a teu amor
vive escuro em meu corpo o apertado
aroma que ascendeu da terra.

Te amo sem saber como...
nem quando...
nem onde...

Te amo assim diretamente...
sem problemas...
sem orgulho...

Assim te amo
por que não sei amar...
de outra maneira
sendo assim deste modo!

Que não sou
nem és tão perto
que tua mão
sobre o meu peito é minha
tão perto que se fecham
teus olhos com meu sonho.

© PABLO NERUDA
12 de julho de 1904
23 de setembro de 1973
poema matutino

o primeiro poema
tem gosto de ressaca
nas palavras
e na boca insone

o primeiro poema
da manhã
traz sempre consigo
segredos da madrugada
que se foi
que só o coração do poeta
conhece.

© Ademir Antonio Bacca
Arte: Fornero
MERCEDES SOSA é argentina de Tucumán, onde nasceu em 9 de julho de 1935. Conhecida como “La Negra”, é a maior cantora latino-americana dos últimos tempos. Foi descoberta aos 15 anos, cantando num concurso em uma rádio de sua cidade. Ganhou um contrato de dois meses e gravou seu primeiro disco.
A consgração internacional veio em 1967, quando sua voz forte conquistou a Europa e os Estados Unidos. No Brasil o sucesso chegou-lhe através de interpretações magistrais de músicas de Milton Nascimento.

espólio

quando saí
da tua vida
levei pouca coisa,

uns sonhos
que não deram certo
e um vazio no peito
que não cabia
dentro da mala.

© Ademir Antonio Bacca
do livro “O Relógio de Alice”
Arte: Paulo Caruso

A BRUSCA POESIA DA MULHER AMADA

© VINICIUS DE MORAES

19 de outubro de 1913
9 de julho de 1980

Longe dos pescadores os rios infindáveis vão morrendo de sede lentamente...
Eles foram vistos caminhando de noite para o amor – oh, a mulher amada é
como a fonte!
A mulher amada é como o pensamento do filósofo sofrendo
A mulher amada é como o lago dormindo no cerro perdido
Mas quem é essa misteriosa que é como um círio crepitando no peito?
Essa que tem olhos, lábios e dedos dentro da forma inexistente?

Pelo trigo a nascer nas campinas de sol a terra amorosa elevou a face pálida dos lírios
E os lavradores foram se mudando em príncipes de mãos finas e rostos transfigurados...

Oh, a mulher amada é como a onda sozinha correndo distante das praias
Pousada no fundo estará a estrela, e mais além.

prato frio

a madrugada
muitas vezes
reaquece
medos esquecidos

© Ademir Antonio Bacca
RICHARD STARKEY, o RINGO STARR nasceu em Liverpool, no dia 7 de julho de 1940 e, EM 1962, entrou para os Beatles em substituição ao baterista Pete Best. Considerado o patinho feio daquela que é a maior banda de rock de todos os tempos, passou por vários problemas de saúde quando era pequeno, ficando internado em um total de três anos em hospitais de Liverpool. Por essa razão, Ringo acabou ficando atrasado na escola e aos 15 anos mal sabia ler e escrever. Começou a tocar em 1957, com sua própria banda, chamada The Eddie Clayton Skiffle Group. Em 1959, Ringo juntou-se ao grupo Raving Texans, que tinha como cantor Roy Storm. Posteriormente a banda mudou de nome para Rory Storm and the Hurricanes.
Nos Beatles, Ringo sempre cantou uma música nos shows e discos da banda. Entre as músicas que Ringo cantou nos Beatles estão: "Boys", "I Wanna Be Your Man", "Honey Don't", "Act Naturally e "What Goes On" (esta última, co-escrita por John, Paul e Ringo). Porém Ringo compôs sozinho apenas duas músicas quando estava nos Beatles: "Don't Pass Me By", para o “Álbum Branco”, e Octopus's Garden" para o álbum “Abbey Road”. Apesar disso, os Beatles fizeram grande sucesso com duas cantadas por Ringo: "Yellow Submarine" do álbum “Revolver” e "With a Little Help From My Friends" do álbum “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”.
Ringo foi o único ex-beatle que participou de trabalhos solo de todos os outros ex-colegas de banda.
palavras de consolo
não brotam naturalmente
em mim

não sei consolar

diante da morte
a vida é do jeito que é:
estrada que dá no cais
onde não se chega,
só se vai

não busque em mim
a palavra que consola,

só o abraço que aquece
o sonho que continua

© Ademir Antonio Bacca
do livro “Grito por dentro das palavras”
Arte: Jose Serrudo

ÁSTOR PIAZZOLLA nasceu em Mar Del Plata no dia 11 de março de 1912 e morreu em Buenos Aires em 4 de julho de 1992. Músico fantástico, segundo muitos especialistas, foi o compositor de tango mais notável da segunda metade do século XX. Estudou harmonia e música erudita com a compositora e diretora de orquestra francesa Nadia Boulanter, que foi aluna de Sergei Rachmaninoff. Em sua juventude, tocou e realizou arranjos orquestrais para Anibal Troillo. Quando começou a fazer inovações no tango, no ritmo, no timbre e na harmonia, foi muito criticado pelos tocadores de tango mais antigos.
Quando os mais ortodoxos, durante a década de 60, bradaram que a música dele não era de fato tango, Piazzolla respondia-lhes que era música contemporânea de Buenos Aires. Para seus seguidores e apreciadores, essa música certamente representava melhor a imagem da metrópole argentina.
Sua composição mais famosa é “Balada para un loco”, da qual Moacyr Franco, nos anos 70, fez uma versão magistral, mas o disco mais marcante de sua carreira é “Libertango”.
INTOCÁVEIS

© JADE DANTAS

Escorrego nas palavras,
na densidade com que elas me provocam
e calo (com medo da imensidade).

Falo das palavras que me escondem.
Falo dos sonhos e dos segredos
intocáveis. Falo do refúgio úmido

onde te anseio. Do meu lado selvagem.
Falo da poesia da tua voz ao meu ouvido
e escorrego nas palavras. Falo de ti.

sexta-feira, junho 29, 2007

Arte: Ceslovas Cesnakevicius

nascente

água de fonte cristalina,
rio que nasce
bem no meio dos teus olhos
e começa a correr pela face
e vai desaguar silenciosamente
no mar
enquanto a vida perde o sentido
nas páginas do jornal

© Ademir Antonio Bacca

do livro em preparo “Grito por dentro das palavras”
Arte: Gogue
“Se não fossem as mulheres,
o homem ainda estaria agachado
em uma caverna,
comendo carne crua.
Nós só construímos a civilização
a fim de impressionar
nossas namoradas.”

ORSON WELLES
1915-1985
mosaico

os vestígios
que deixo nas mesas de bar
sei que o tempo não apaga

retalhos que se encaixam
um a um
na colcha de lembranças
que teço solitário,
entre um gole e outro,
enquanto não vens

© Ademir Antonio Bacca

"O que mais preocupa
não é nem o grito dos violentos,
dos corruptos,
dos desonestos,
dos sem caráter,
dos sem ética.
O que mais preocupa
é o silêncio dos bons."

MARTIN LUTHER KING
1929 - 1968
estrela guia

farol
no meio da noite
a palavra
ajuda o poeta
ancorar a sua dor
em corpo seguro
mesmo que
não tenha cais.

© Ademir Antonio Bacca

do livro em preparo “Grito por dentro das palavras”
Arte: Fraga
“Em meus textos.
quero chocar o leitor,
não deixar que ele repouse
na bengala dos lugares-comuns,
das expressões acostumadas
e domesticadas.
Quero obrigá-lo a sentir
uma novidade nas palavras.”

JOÃO GUIMARÃES ROSA
1908 – 1967
MADRUGADAS

© SUELY DE FREITAS MARTÍ

Flor do desejo
se abriu em mim
derrubando grossas grades
da minha janela;
cheiro de amor
se espalhou em mim
trazendo no vento forte
restos daquele sonho.
Com olhos presos na estrada
como se não existisse chegada
me desnudo de tudo e me perco em ti
e aquele anoitecer azul, distante
se espalha em nossos corpos
e nos veste
de antigas madrugadas.
"Sacrifice" © adebach / 2007 - Técnica: Fractal
Arte: Baptistão
“O escritor é um sujeito
que não se conforma com o mundo
do jeito que ele é,
por isso, inventa outro.”

ARIANO SUASSUNA
comunhão

partilho contigo este sonho
que se renova
antes que o dia amanheça

partilho contigo esta saudade
daquilo que fomos
e que não passa
junto com a chuva
que se esvai pela calçada

partilho contigo a palavra
de todos os dias
onde renovo a esperança
de que o nosso sonho
não se transforme
em mera saudade,
um dia.


© Ademir Antonio Bacca
do livro em preparo “Grito por dentro das palavras”

quinta-feira, junho 07, 2007

Arte: "Time goes by" © Manuel Lao

dia dos pais

tem
dias
que
a
vida
é

saudade

© Ademir Antonio Bacca
Arte: "La Paix" © Ademir Antonio Bacca - Técnica: Fractal

No dia 25 de maio recebi o e-mail abaixo, o qual comunicava minha nomeação para o cargo de “Embaixador da Paz”, cargo para o qual eu havia sido indicado pela Embaixadora do Poetas del Mundo no Brasil, escritora Delasnieve Daspet.

Nomination Ambassadeur de la Paix

Cher Monsieur,

Nous vous informons que notre Président Fondateur Jean Paul Nouchi a quitté son enveloppe physique le 07 avril 2007. Le cercle Universel des Ambassadeurs de la Paix continue avec la nouvelle présidente Gabrielle Simond dans le même esprit que notre Fondateur.
Votre nomination nous a été proposé par Delasnieve Daspet et nous acceptons de vous compter dans notre cercle.
Pour confirmation veuillez nous renvoyer rempli le texte qui suit :

Madame la Présidente
Cercle Universel des Ambassadeurs de la Paix
Universal Ambassador Peace Cicle
univ.ambassadorpeacecircle@orange.fr

Ainda movido pela emoção, fazia meus experimentos digitais no “Apophysis” e cheguei a este fractal, que passarei a usar como símbolo nesta minha nova atividade.


quando o desejo
caminha na corda bamba,
sobe escadas
e lança-se em vôo cego
pelas asas do trapézio
fecho os olhos,
rezo pro meu santo
e me deixo levar.

© Ademir Antonio Bacca
do livro em preparo “Panis et Circences”
Arte: Dálcio Machado
“A leitura
é o grande abismo
que separa o sábio
do incauto.”

CHICO BUARQUE DE HOLLANDA


sol refletido
nas águas da memória
tua lembrança faz parte
de um tempo que parou
na moldura da minha janela

© Ademir Antonio Bacca
do livro em preparo “Grito por dentro das palavras”
Arte: Bahar Movahed Bashir
"A beleza
é a única coisa
preciosa na vida.
É difícil encontrá-la
Mas quem consegue,
descobre tudo."

CHARLES CHAPLIN
(1889 – 1977)
o tempo de espera
é o divisor de águas
entre a paixão e o sonho

quantas lembranças
cabem dentro de uma noite
de saudade?

a palavra move
o moinho da emoção
em giros cadenciados
e lentos

toda espera se dilui
entre as pedras

© Ademir Antonio Bacca
do livro em preparo “Grito por dentro das palavras”

sexta-feira, maio 25, 2007

Arte: "Children of mind" © Charito Gil

manhãs de domingo

há um trem que passa por aqui
e desperta as minhas lembranças
com seu apito nostálgico

há um velho trem
a percorrer nas manhãs de domingo
os caminhos por onde andei
na minha infância que se foi
embarcada em seus vagões

no apito da velha maria fumaça
me deixo levar trilhos afora
toda vez que ela passa por aqui
e desperta o menino
que ainda corre, pés descalços
atrás de tantos sonhos
dentro de mim

© Ademir Antonio Bacca
do livro “O Relógio de Alice”
Abstrato 0160 © adebach
Técnica: Fractal

descuido

cavalo encilhado
que passava na porta
da sua vida
sem que percebesse
ser aquela a paixão
que tanto procurava
(e que acabaria
galopando em suas noites
de insônia
para o resto dos seus dias)
o poeta não se deu conta
que aquela era a hora

quando percebeu,
era tarde:
o tropel ia longe
e espalhava
sonhos mal dormidos
pelos campos da solidão

© Ademir Antonio Bacca
do livro “O Relógio de Alice”

das metades

nem sempre
a boca
que me sacia
sedes
está no corpo
que me aquieta
desejos.

© Ademir Antonio Bacca
do livro “O Relógio de Alice”

domingo, maio 20, 2007


E O POETA FOI MORAR NO VENTO SUL



Aidenor Aires*






Viver muito dá nisto: somar perdas, ficar inchado de coisas que vão nos deixando pelo caminho. Raramente, os que morrem jovens, os preferidos dos deuses, contam as dolorosas aquisições modernas: diabetes, colesterol, depressão, Alzheimer, Parkinson, hipertensão etc.etc. Morrer jovem é um ícone romântico que deixa hígida, festiva e futurosa a imagem do morto. Toda a vida que poderia ter sido. Todo o amor sorrindo. Todo o sonho de realização. Vejo em seus retratos o permanente sorriso celebrando a vida e a juventude. Não ocorre o mesmo com quem estendeu o dia solar da existência. Tem que enfrentar o meio dia causticante, a tarde bochornosa, o crepúsculo opaco ou sangrante. Mais que tudo, as defecções, as fugas e a crescente solidão de ver seu grupo ir encolhendo a cada dia. As perdas não se somam num buraco que afunda em nossas vidas. Elas têm rosto, são únicas. Cada uma dói sozinha. Não se confunde, nem se mistura. Sempre penso numa orquestra quando olho meus companheiros de jornada. Ela é a convergência compulsória de vontades individuais. Cada um quer executar seu instrumento, sua voz, sua parte na partitura, o momentâneo virtuosismo. Mas o maestro os reúne na grande voz da sinfonia. Se faltar um ou desafinar dói na melodia. No último dia 15 a poesia goiana se desafinou. Calou-se o poeta Aldair Aires que, apesar da quase homofonia do nome, não era meu parente. Talvez o fosse irmão pertencente à universal grei dos Aires, desembarcada em Catalão. Foram longos anos de amizade. Ele,com sua voz bem postada, de experimentado ator, repetindo, em chiste, a interjeição dolorosa inicial de meu nome: Ai! Ai!...denor. Depois, soltava uma gargalhada e me abraçava: - Como vai nego? Sua lembrança permeia uma geração que foi paradigmática em Goiás. Atuou no teatro, pertenceu ao Grupo de Escritores Novos, exerceu o magistério. Experimentou aventuras originais. Montou o restaurante Forno de Barro, onde transferiu a poesia para o fogão e a mesa. O saboroso e hoje universal peixe na telha, galinhadas esfuziantes e uma parede com autógrafos de artistas e celebridades que freqüentavam o restaurante. Desgarrou-se depois para a Bahia, para a Amazônia. Reaproximando de Goiás, encontrei-o em Barra do Garças, lecionando na universidade. Ali se aposentou, retornando a Goiânia, já com o incômodo da enfermidade que o torturaria até o fim. Sempre fiel à poesia, às amizades. Com a voz mutilada por uma cirurgia, esforçou-se até conseguir recuperá-la e voltou a declamar. Estivemos em Bento Gonçalves, em várias cidades do Chile em 2006. Já tinha se mudado para Silvânia, onde encontrara sua Parsargada. Voltara a sorrir. Dedicava-se às atividades culturais, pesquisa de folclore, artesanato e montara sua “egoteca”, com as lembranças que reunira na vida. Dia 15, seu instrumento de alento desafinou. Temos que fazer outra orquestra. Cumpriu seu mister, como vaticinou num poema: “Catar cacos de palavras/E ir juntando aos poucos/ O quebra cabeça da vida: Eis o ofício do poeta/Que desarvora/ A cada vento sul.”




*Aidenor Aires é escritor, da Academia Goiana de Letras, e publicou este texto originalmente no Jornal “Diário da Manhã”, de Goiânia.

quarta-feira, maio 16, 2007


A POESIA BRASILEIRA PERDE ALDAIR AIRES

Uma das mais fortes vozes da poesia goiana calou-se na manhã de ontem, dia 15, em um hospital de Goiânia. Aldair Aires era um dos poetas goianos contemporâneos mais premiados nos últimos anos e um ser humano de múltiplas virtudes.
Tive o prazer de conviver com ele momentos inesquecíveis de poesia, de boemia e de conversas jogadas fora, seja em Goiânia ou aqui em Bento Gonçalves, em suas duas vindas ao Congresso Brasileiro de Poesia.
Quando esteve aqui em casa, trouxe-me não apenas jabuticabas colhidas no quintal de sua casa em Silvânia, como também uma garrafa do finíssimo licor que fazia e também uma garrafa de pinga goiana lindamente trabalhada e com poeminhas meus impressos no rótulo.
Aldair tinha uma consideração pela minha poesia que muitas vezes me deixava constrangido. Via em meus versos qualidades que por vezes eu achava que beiravam o exagero.
Escreveu críticas sobre meus livros “Pandorgas ao Vento” e “Plano de Vôo” e estava escrevendo o prefácio de “O Relógio de Alice” que não sei se chegou a concluir.
Sei sim da sua alegria com meus versos de quando recebeu o original do livro e meu pedido para que o prefaciasse. Em e-mail emocionado falou-me do quanto gostara do livro e pela primeira vez anunciou sua luta contra o câncer. Mas estava otimista e até brindou-me com um poema sobre o momento da chegada do meu original, que divido com vocês e faz parte desde já dos meus tesouros mais caros.
Foi-se o poeta, mas fica a sua poesia a imortalizá-lo nas letras goianas. Foi-se o amigo, mas ficam momentos belíssimos para aquecer as noites de saudade que virão.

O CORREIO E SUAS ASAS.

© ALDAIR AIRES

Nada de nada
Num corpo sonolento
De espantos e tédios.

Nada de nada
Numa cabeça entorpecida
Ainda pelos sons da máquina
metralhando raios em suas carnes,
em busca do que se esconde
no provável incerto
do que se teme.

De repente, o carteiro.
E seu sorriso e suas mãos
E uma caixa lacrada.
De Quê? De Quês?
O conteúdo no encoberto
De que seria? O que seria?
E interrogações ganharam asas
Giravam e giravam e giravam
Cirandas em torno e dentro
Da cabeça encharcada de abismos.

Um rasgo no invólucro
E um jorro cachoeirou de poesia
Corpo e alma e tudo, num desvario
Orgástico de vida.

Bacca abarcou a tarde morna
e fez ressurgir, nos nadas de então,
uma tênue e doce esperança
com a força de seus versos
e o Relógio de Alice estribilhou:
é hora de sentir a beleza da vida,
é hora de viver a grandeza da vida,
é hora de amar a poesia da vida.


REFLEXOS DA FEIRA DO LIVRO (2)

Também foi muito interessante reencontrar KLEDIR RAMIL, com quem estive na Feira do Livro de Ribeirão Preto alguns anos atrás. Fã incondicional de sua música desde os tempos do grupo “Almôndegas”, é com alegria que hoje vejo-o dividindo-se com o mesmo talento entre a dupla com o irmão Kleiton e a literatura, onde vem se revelando um cronista de primeira qualidade. Nosso papo rendeu uma bela entrevista para a Rádio Viva AM.


REFLEXOS DA FEIRA DO LIVRO (1)
A Feira do Livro de Bento Gonçalves sempre me proporciona momentos agradáveis. Seja pelo clima mágico de ver o livro na praça ou pelas crianças das escolas envolvidas em tantas promoções.
Mas a feira também é local de troca de experiências, de encontros com novos escritores e reencontros com amigos.
Foi o que aconteceu nesta vigésima segunda edição, quando tive a alegria de reencontrar o jornalista CACO BARCELLOS, que conheci aqui mesmo em Bento Gonçalves na metade dos anos setenta, quando ele era repórter da extinta Folha da Manhã e cobrimos juntos um caso de assassinato.

sábado, maio 05, 2007

Arte: "Häutung II" © Charito Gil

redescubro segredos nossos
em meio a antigas lembranças
que fogem da caixa de pandora
esquecida no fundo do armário

nas juras até então secretas
que fogem pela janela aberta,
estão todas as palavras
que não conseguimos salvar
do incêndio emocional
que queimou nossos sonhos
adolescentes
e ao abrir a janela dos meus dias,
descubro no que sobrou no fundo
da caixa de lembranças
que por mais frágil
que seja o sonho da madrugada,
ele sempre se renova ao amanhecer.

© Ademir Antonio Bacca
Foto: Glenn Traver

lembrete na agenda

todo sonho
se tece
com cautela.

© Ademir Antonio Bacca
do livro “O Relógio de Alice”
OUTONO

© MARGIT DIDJURGEIT

No silencio da luz,
reproduzo o som de minhas lembranças.

Já se foram os dias de primavera,
onde os sons, eram toda a sorte de risadas.

Foram-se também os verões,
tempo da colheita de anos amadurecidos,
dos frutos plenos e suculentos de energia.
Dos odores de pão quente.
Do sabor de vinho fresco.

Agora estou no outono,
a vida passa mais curta,
feito os dias desta estação.

Perscruto o meu interior,
reúno todas as boas lembranças.

As lembranças em minhas mãos,
são como as folhas, flores e frutos nesta estação.
Sua textura é aveludada.

E no silenciar dos sons desnecessários,
recolho as lembranças.
São os gravetos e folhas já quase secos,
caídos dos meus dias.
Arrancadas nos açoites de ventos e chuvas.

Guardo-os cuidadosamente.

Farei fogueiras nas minhas noites de meu inverno!


das divergências

a rede
que protege
teu corpo
não te defende
dos teus medos

o movimento
que leva teu corpo
ao espaço
não ergue teu sonho
um palmo acima do chão

trapezistas e peixes
divergem sobre redes
de contenção

© Ademir Antonio Bacca
do livro “O Relógio de Alice”
LEONARDO di Ser Piero DA VINCI
1452 – 1519

Leonardo da Vinci nasceu em 15 de abril de 1452, na cidade de Vinci, perto de Florença, e faleceu em 2 de maio de 1519, na França. Além de fazer muitos trabalhos artísticos, com o retrato de "Mona Lisa", "Del Giocondo", conhecida por "La Gioconda" e "A Última Ceia", foi poeta, matemático, arquiteto e engenheiro militar. Realizou desenhos e projetos em matemática, perspectiva, ótica, mecânica, balística, fortificações, hidráulica e astronomia, projetando também uma máquina para voar. Dedicou-se a vários problemas astronômicos e mostrou alguma evidência de fatos favoráveis à hipótese de que a Terra girava ao redor de seu eixo de rotação, idéia esta não aceita em sua época.
Seus cadernos eram recheados de desenhos e símbolos e observações que iam da acústica ao zodíaco. Começou estudando a ciência do movimento, via na força da água um propulsor das máquinas, acreditava que seu movimento e deslocamento era a chave da vida no mundo. Para Leonardo da Vinci, o sol não se movia e a Terra não estava no centro de sua órbita, nem no centro do universo. Acreditava ser a matemática a mais pura de todas as ciências, pois, revelava todas as leis e necessidades da natureza.
Como inventor, Leonardo previu o papel que as máquinas desempenhariam com eficiência e produtividade, isso porque seus desenhos constituem a primeira visão da revolução industrial que ocorreria mais de trezentos anos depois. Na área têxtil, desenhou um fuso móvel, um dispositivo para tornos, e para os metalúrgicos, um conjunto automático para rosca e parafuso.
Um dos estudos mais interessantes foi a elaboração de um instrumento que pudesse voar. Utilizou como modelo as asas de um morcego. Alongadamente às estruturas interdigitais do animal, construiu o instrumento voador, cujas funções eram a sustentação e o comando. Em muitos de seus inventos, utilizou as "asas móveis", que eram movidas através de alavancas e manivelas, manipuladas por um operador que ficava sentado e com as pernas abertas. (Fonte:
www.museutec.org.br )


amora

guardo em mim
o teu aroma mais doce
de uma noite de outono
que ainda não passou

gosto de fruta madura
a molhar meus lábios
nestas longas noites
de espera

© Ademir Antonio Bacca
do livro em preparo”Grito por dentro das Palavras”

sexta-feira, abril 20, 2007

Arte: "On Stage" © Ben Goossens

COTIDIANO

Eu canto
a agonia do homem
que cai do andaime
no meio da tarde vazia
e a dor das mãos angustiadas
que não se encontram
na hora do adeus;

eu canto
as lágrimas de sangue
do palhaço crucificado
no centro do picadeiro
e a insensatez
do bêbado-equilibrista
que faz seu número
no meio da calçada
pra platéia nenhuma;

eu canto
a ingratidão do ofício
de juntar as peças
deste mosaico estranho
que resolveram batizar
de cotidiano.

© Ademir Antonio Bacca
do livro em preparo: “Panis et Circenses”
ABSTRATO 0149 © Adebach
Técnica: Fractal — Programa: Apophysis

veredicto

terão sido
completamente inúteis
as palavras que escrevi
em versos
de se perder a conta,
se não encontrar
a ponta do fio
que desate
todos os meus nós


© Ademir Antonio Bacca


POEMA VI

© PABLO NERUDA

Te recordo como eras no último outono.
Eras a boina cinza e o coração em calma.
Em teus olhos pelejavam as chamas do crepúsculo.
E as folhas caiam na água de tua alma.

Apegada a meus braços como uma trepadeira,
as folhas recolhiam tua voz lenta e em calma.
Figueira de estupor em que minha sede ardia.
Doce jacinto azul torcido sobre minha alma.

Sinto viajar teus olhos e é distante o outono:
boina cinza, voz de pássaro e coração de casa
fazia onde emigravam meus profundos anseios
e caiam meus beijos alegres como brasas.

Céu desde um navio. Campo desde os cerros.
Tua recordação é de luz, de fumaça, de tanque em calma!
Mais além de teus olhos ardiam os crepúsculos.
Folhas secas de outono giravam em tua alma.

(Retirado de: Vinte poemas de amor e uma canção desesperada)
Tradução: Maria Teresa Almeida Pina
pano de fundo

por trás destes olhos
perderam-se encantos tantos
de se perder a conta

quantos sonhos banharam-se
neste azul que enfeitiça?

quantas paixões naufragaram
em águas tão traiçoeiras?

por trás deste olhar
palavras desavisadas
estilhaçam-se feito vidro
no caminho de bala perdida.

© Ademir Antonio Bacca

de vez
em quando
meus olhos
se fazem
rio
por aquilo
que não
fui.

© Ademir Antonio Bacca
do livro “O Relógio de Alice”

desejos
são sementes
de sonhos
que espalhamos
pelas noites
insones.

por isso
tantas manhãs
de pura fantasia.

© Ademir Antonio Bacca

sexta-feira, abril 06, 2007


Arte: Manuel Lao

MURMÚRIO

CECILIA MEIRELES
1901 – 1964

Traze-me um pouco das sombras serenas
que as nuvens transportam por cima do dia!
Um pouco de sombra, apenas,
— vê que nem te peço alegria.

Traze-me um pouco da alvura dos luares
que a noite sustenta no teu coração!
A alvura, apenas, dos ares:
— vê que nem te peço ilusão.

Traze-me um pouco da tua lembrança,
aroma perdido, saudade da flor!
— Vê que nem te digo — esperança!
— Vê que nem sequer sonho — amor!

(colaboração: Ângela Weingartner Becker)
Arte: Rui Duarte


“A língua é nossa pátria,
pobre e sofredora pátria,
tão mal-ensinada,
tão mal-aprendida,
inflada grotescamente
de estrangeirismos inúteis.”

JOSÉ SARAMAGO

batidas
de asas
inúteis

viagem
que não leva
a verso nenhum

a madrugada
se faz longa demais
para todo aquele
que tem pressa
de voar

© Ademir Antonio Bacca
do livro “O Relógio de Alice”
Arte: Henrique Rodrigues Pinto
“Estilo é a deficiência
que faz o sujeito escrever
sempre do mesmo jeito.”

MARIO QUINTANA
1906-1994

Abstrato 0148 © adebach/2007 - Técnica: Fractal
do encantamento

tuas asas abertas
sobre o meu corpo

© Ademir Antonio Bacca
do livro “O Relógio de Alice”
Arte: Restrepo
"Eu sou como um rio que continua a correr,
carregando as árvores que crescem muito perto dos bancos,
carcaças abandonadas
e as várias espécies de micróbios que proliferam em suas águas.
Eu absorvo tudo isso e continuo em meu caminho."

PABLO PICASSO
1881 / 1973

estiagem

quando
a fonte seca
é preciso
reativar
as vertentes

mesmo
que falte
vontade
para afastar
as pedras.

© Ademir Antonio Bacca
do livro “O Relógio de Alice”

“Se os líderes
lessem poesia,
seriam mais sábios.”

OCTÁVIO PAZ
1914 - 1998
tantas
as feridas abertas
sangrando à toa
na madrugada
de palavras rudes
e intenções de abandono

sangra a paixão
o gesto derradeiro
e eu me deixo ficar
quieto no meu canto
porque sei que de nada
serve um dia
que não me traga
uma surpresa sequer

© Ademir Antonio Bacca