poeta, escritor, contista, jornalista, radialista, pesquisador e produtor cultural
domingo, maio 21, 2006
domingo, maio 14, 2006
sábado, maio 13, 2006
Bento Gonçalves vive em tempo de leitura. É a Feira do Livro mais uma vez na Praça Dr. Walter Galássi. Lá estive, apesar da gripe, na última sexta-feira, 13, para participar do projeto "É Tempo de Histórias", juntamente com os escritores Carlos Urbin e Kalunga. A Feira do Livro de Bento Gonçalves é hoje uma das mais importantes do interior do estado gaúcho.
Certas canções
Certas músicas
deveriam ser proibidas
de tocar no rádio.
Há canções que viajam
no sentido inverso da vida,
com a pressa das naves espaciais.
Intrusas,
voltam no tempo,
mexem no baú das lembranças
e nos deixam a chorar
a vida derramada.
Certas canções
deveriam desaparecer junto com os anos,
mas
não fossem elas voltar de vez em quando
num rádio ligado ao acaso,
onde reencontrar a magia dos velhos tempos
que ainda move a roda da nossa emoção?
© Ademir Antonio Bacca
do livro inédito “O Relógio de Alice”
Certas músicas
deveriam ser proibidas
de tocar no rádio.
Há canções que viajam
no sentido inverso da vida,
com a pressa das naves espaciais.
Intrusas,
voltam no tempo,
mexem no baú das lembranças
e nos deixam a chorar
a vida derramada.
Certas canções
deveriam desaparecer junto com os anos,
mas
não fossem elas voltar de vez em quando
num rádio ligado ao acaso,
onde reencontrar a magia dos velhos tempos
que ainda move a roda da nossa emoção?
© Ademir Antonio Bacca
do livro inédito “O Relógio de Alice”
segunda-feira, maio 08, 2006
Desde quando saudade dói?
Não entendo
aqueles que dizem
sofrer de saudade.
Como podem me doer
as lembranças daqueles
que não estão,
se elas me completam,
se elas me devolvem o brilho do olhar?
Como podem me doer
as lembranças das coisas que vi,
as luzes de Paris,
as tulipas de Amsterdan,
o pôr do sol em Venza
ou as pirâmides mexicanas
se elas me fazem voltar a elas
sem que eu saia do lugar?
Não sei onde a dor da saudade.
Como pode doer a lembrança
das mulheres que me abandonaram
se delas lembro o prazer que me deram
e não do dia em que se foram?
Onde a dor da ausência dos meus mortos
se eles não se foram de dentro de mim?
Como pode me doer a saudade do meu pai
se ele ainda me leva pela mão
pelos caminhos da infância
e me reabre portas dos sonhos ainda por sonhar?
Definitivamente, não entendo
aqueles que dizem sofrer de saudades.
Vai ver,
eu é que não entendo nada de saudade.
© Ademir Antonio Bacca
do livro “Plano de Vôo”
Não entendo
aqueles que dizem
sofrer de saudade.
Como podem me doer
as lembranças daqueles
que não estão,
se elas me completam,
se elas me devolvem o brilho do olhar?
Como podem me doer
as lembranças das coisas que vi,
as luzes de Paris,
as tulipas de Amsterdan,
o pôr do sol em Venza
ou as pirâmides mexicanas
se elas me fazem voltar a elas
sem que eu saia do lugar?
Não sei onde a dor da saudade.
Como pode doer a lembrança
das mulheres que me abandonaram
se delas lembro o prazer que me deram
e não do dia em que se foram?
Onde a dor da ausência dos meus mortos
se eles não se foram de dentro de mim?
Como pode me doer a saudade do meu pai
se ele ainda me leva pela mão
pelos caminhos da infância
e me reabre portas dos sonhos ainda por sonhar?
Definitivamente, não entendo
aqueles que dizem sofrer de saudades.
Vai ver,
eu é que não entendo nada de saudade.
© Ademir Antonio Bacca
do livro “Plano de Vôo”
POEMAS QUE GOSTO (20)
RAZÃO DE SER
Escrevo. E pronto.
Escrevo porque preciso,
preciso porque estou tonto.
Ninguém tem nada com isso.
Escrevo porque amanhece,
E as estrelas lá no céu
Lembram letras no papel,
Quando o poema me anoitece.
A aranha tece teias.
O peixe beija e morde o que vê.
Eu escrevo apenas.
Tem que ter por quê?
LEMINSKI
(1944-1989)
RAZÃO DE SER
Escrevo. E pronto.
Escrevo porque preciso,
preciso porque estou tonto.
Ninguém tem nada com isso.
Escrevo porque amanhece,
E as estrelas lá no céu
Lembram letras no papel,
Quando o poema me anoitece.
A aranha tece teias.
O peixe beija e morde o que vê.
Eu escrevo apenas.
Tem que ter por quê?
LEMINSKI
(1944-1989)
terça-feira, maio 02, 2006
sexta-feira, abril 28, 2006
quarta-feira, abril 26, 2006
Num dia desses falei aqui da minha coleção de versões de Mona Lisas, uma eterna paixão de todos aqueles que se dedicam à arte digital. Ainda não fiz a minha versão, mas gasto algumas das minhas horas de insônia procurando novas versões (no google há 15.600.000 sites sobre ela). Esta é uma das minhas preferidas. Infelizmente desconheço o nome do autor. Se alguém souber, me socorra.
POEMAS QUE GOSTO (19)
LITURGIA
J. G. DE ARAÚJO JORGE
Minha catedral é a Noite com os vitrais surrealistas das nebulosas,
ciclópicos vitrais!
— e os feixes claros do luar são o espírito ático de colunas imateriais,
sustentando fantásticas ogivas;
o altar são as montanhas; as estrelas são lâmpadas votivas
sempre trêmulas, sempre vivas,
acesas toda noite para velar as imagens que rondam cá em baixo
na terra...
E o meu deus, - não tenho deus!... mas nessa extraordinária religião,
quando me faço um missionário,
o Sol, - é esse deus humanitário
onde tudo se encerra,
rezando para todos os homens a missa campal do dia
dos que trabalham a terra!
Nessa verdade eu creio, com essa luz eu me aqueço,
com esse verbo me embalo,
os meus símbolos são os pássaros, as nuvens, os ventos, as fontes,
que são livres!
— e os horizontes!
— É esse o idioma que falo!
LITURGIA
J. G. DE ARAÚJO JORGE
Minha catedral é a Noite com os vitrais surrealistas das nebulosas,
ciclópicos vitrais!
— e os feixes claros do luar são o espírito ático de colunas imateriais,
sustentando fantásticas ogivas;
o altar são as montanhas; as estrelas são lâmpadas votivas
sempre trêmulas, sempre vivas,
acesas toda noite para velar as imagens que rondam cá em baixo
na terra...
E o meu deus, - não tenho deus!... mas nessa extraordinária religião,
quando me faço um missionário,
o Sol, - é esse deus humanitário
onde tudo se encerra,
rezando para todos os homens a missa campal do dia
dos que trabalham a terra!
Nessa verdade eu creio, com essa luz eu me aqueço,
com esse verbo me embalo,
os meus símbolos são os pássaros, as nuvens, os ventos, as fontes,
que são livres!
— e os horizontes!
— É esse o idioma que falo!
a tua é lembrança
que se esvai à luz de velas
devagar,
doendo cada instante lembrado,
sangrando cada milímetro
de pavio queimado
a tua é lembrança
que eu queria que se fosse
com a pressa das águas dos rios
mas te vais devagar,
sem pressa nenhuma de ir,
deixando que eu me consuma
num fogo interior
à luz de velas.
® Ademir Antonio Bacca
* do livro: “Pandorgas ao Vento”
que se esvai à luz de velas
devagar,
doendo cada instante lembrado,
sangrando cada milímetro
de pavio queimado
a tua é lembrança
que eu queria que se fosse
com a pressa das águas dos rios
mas te vais devagar,
sem pressa nenhuma de ir,
deixando que eu me consuma
num fogo interior
à luz de velas.
® Ademir Antonio Bacca
* do livro: “Pandorgas ao Vento”
terça-feira, abril 18, 2006
Além da poesia, da arte digital e dos fractais, também coleciono citações, Mona Lisas (tenho mais de quatrocentas versões) e caricaturas, esta a minha maior coleção, já passando das vinte mil. Entre meus caricaturistas preferidos está o iuguslavo PETAR PISMETROVIC, atualmente residindo na Áustria. Dono de um traço maravilhoso, é também um dos mais respeitados cartunistas da imprensa mundia. E dentre todas as minhas caricaturas, a mais sensacional, sem dúvidas, é esta que ele fez do ator Clint Eastwood.
quarta-feira, abril 12, 2006
POEMAS QUE GOSTO (18)
MULHER DE MINUTOS
Não sou mulher de minutos
Daquelas que os segundos varrem
Para debaixo do tapete sujo
Não pinto os cabelos de fogo
Nem faço tatuagem no umbigo
Me recuso a usar corpetes e cinta-liga
Há sementes em meu ventre
São poemas que ainda não reguei
Prefiro guardá-los em silêncio
Até que o vento amadureça meus segundos
E a vida me contemple com seus frutos
Não borro meus cílios na solidão da noite
Nem pinto meu rosto com a palidez das manhãs
Meu corpo é feito de marés
Onde navegam mil anseios
Veleiros em direção —
Estou sempre na contramão
® MONICA MONTONE
DO LIVRO “Mulher de Minutos”
MULHER DE MINUTOS
Não sou mulher de minutos
Daquelas que os segundos varrem
Para debaixo do tapete sujo
Não pinto os cabelos de fogo
Nem faço tatuagem no umbigo
Me recuso a usar corpetes e cinta-liga
Há sementes em meu ventre
São poemas que ainda não reguei
Prefiro guardá-los em silêncio
Até que o vento amadureça meus segundos
E a vida me contemple com seus frutos
Não borro meus cílios na solidão da noite
Nem pinto meu rosto com a palidez das manhãs
Meu corpo é feito de marés
Onde navegam mil anseios
Veleiros em direção —
Estou sempre na contramão
® MONICA MONTONE
DO LIVRO “Mulher de Minutos”
DE ÍNDIOS & MENDIGOS*
A carne
do índio pataxó
arde vergonhosamente
em chamas
nas páginas de jornais
dos quatro cantos do mundo.
O cheiro da tragédia
incomoda narizes neo-burgueses
acostumados a Chanel nº 5.
Fede mais
que a carne queimada
do índio Galdino,
o cheiro da indiferença
dos seus assassinos.
* A propósito da desculpa “A gente pensava que era um mendigo”,
dada pelos jovens que queimaram, em Brasília no ano de 1997,
o índio pataxó Galdino justamente no dia do índio.
© Ademir Antonio Bacca
A carne
do índio pataxó
arde vergonhosamente
em chamas
nas páginas de jornais
dos quatro cantos do mundo.
O cheiro da tragédia
incomoda narizes neo-burgueses
acostumados a Chanel nº 5.
Fede mais
que a carne queimada
do índio Galdino,
o cheiro da indiferença
dos seus assassinos.
* A propósito da desculpa “A gente pensava que era um mendigo”,
dada pelos jovens que queimaram, em Brasília no ano de 1997,
o índio pataxó Galdino justamente no dia do índio.
© Ademir Antonio Bacca
domingo, abril 09, 2006
de paixões & distâncias
porque a paixão tem essa
de correr riscos,
me aventuro em vôos cegos
de qualquer trapézio
porque a paixão tem essa
de ser inconseqüente,
não quero saber de amores
que não façam meu coração
querer sair pela boca.
habita em mim o gosto pelo perigo
e então equilibro a paixão no fio frágil
que teus olhos estendem
entre a distância que separa
o teu corpo
do meu,
fecho os olhos
e vôo.
© Ademir Antonio Bacca
do livro: “Plano de Vôo”
porque a paixão tem essa
de correr riscos,
me aventuro em vôos cegos
de qualquer trapézio
porque a paixão tem essa
de ser inconseqüente,
não quero saber de amores
que não façam meu coração
querer sair pela boca.
habita em mim o gosto pelo perigo
e então equilibro a paixão no fio frágil
que teus olhos estendem
entre a distância que separa
o teu corpo
do meu,
fecho os olhos
e vôo.
© Ademir Antonio Bacca
do livro: “Plano de Vôo”
Fragilidade
Brinca a criança
com o dedo no gatilho
de uma arma inexistente
enquanto o encanto se faz mistério
mal se acenda a primeira luz
no picadeiro.
Dança a bailarina a sua música triste
num palco imaginário à meia-luz
enquanto prostitutas vagam em bandos
pelas ruas vazias em busca de um porto
para a sua solidão sem homem.
Ah! Os mistérios deste circo de incertezas
que faz brincar com o encanto a bailarina
e os operários e malabaristas de corpos cansados
sem sequer imaginarem o mistério
que faz da vida um brinquedo frágil,
criança tão fácil de se quebrar.
© Ademir Antonio Bacca
do livro: “O Trágico Circo Cotidiano”
Brinca a criança
com o dedo no gatilho
de uma arma inexistente
enquanto o encanto se faz mistério
mal se acenda a primeira luz
no picadeiro.
Dança a bailarina a sua música triste
num palco imaginário à meia-luz
enquanto prostitutas vagam em bandos
pelas ruas vazias em busca de um porto
para a sua solidão sem homem.
Ah! Os mistérios deste circo de incertezas
que faz brincar com o encanto a bailarina
e os operários e malabaristas de corpos cansados
sem sequer imaginarem o mistério
que faz da vida um brinquedo frágil,
criança tão fácil de se quebrar.
© Ademir Antonio Bacca
do livro: “O Trágico Circo Cotidiano”
sábado, abril 01, 2006
POEMAS QUE GOSTO (15)
GEÓRGIA DE ALBUQUERQUE E ALCÂNTARA
ou amnésia, ou ressaca:
- a escolha é pessoal e intransferível
esqueça em cima da mesa do bar
as revelações de alguns flashs
as etiquetas das nossas costuras
a incompetência do que se chama amor
dê de gorjeta ao garçon
o soluço das muitas neuras
as respostas que nos consomem
as mordaças que nos diluem
a esperança que exorciza
o personagem que resiste
ou
brinde em derradeiro gole
tudo aquilo que inventamos
em dose letal
o nosso próprio veneno
que lateja goela abaixo
engasgando nossos silêncios
GEÓRGIA DE ALBUQUERQUE E ALCÂNTARA
ou amnésia, ou ressaca:
- a escolha é pessoal e intransferível
esqueça em cima da mesa do bar
as revelações de alguns flashs
as etiquetas das nossas costuras
a incompetência do que se chama amor
dê de gorjeta ao garçon
o soluço das muitas neuras
as respostas que nos consomem
as mordaças que nos diluem
a esperança que exorciza
o personagem que resiste
ou
brinde em derradeiro gole
tudo aquilo que inventamos
em dose letal
o nosso próprio veneno
que lateja goela abaixo
engasgando nossos silêncios
sexta-feira, março 31, 2006
POEMAS QUE GOSTO (14)
POEMA ENJOADINHO
Vinícius de Morais
Filhos...Filhos?
Melhor não tê-los!
Mas se não os temos
Como sabê-lo?
Se não os temos
Que de consulta
Quanto silêncio
Como o queremos!
Banho de mar
Diz que é um porrete...
Cônjuge voa
Transpõe o espaço
Engole água
Fica salgada
Se iodifica
Depois, que boa
Que morenaço
Que a esposa fica!
Resultado: filho.
E então começa
A aporrinhação:
Cocô está branco
Cocô está preto
Bebe amoníaco
Vinícius de Morais
Filhos...Filhos?
Melhor não tê-los!
Mas se não os temos
Como sabê-lo?
Se não os temos
Que de consulta
Quanto silêncio
Como o queremos!
Banho de mar
Diz que é um porrete...
Cônjuge voa
Transpõe o espaço
Engole água
Fica salgada
Se iodifica
Depois, que boa
Que morenaço
Que a esposa fica!
Resultado: filho.
E então começa
A aporrinhação:
Cocô está branco
Cocô está preto
Bebe amoníaco
Comeu botão.
Filho? Filhos
Melhor não tê-los
Noites de insônia
Cãs prematuras
Prantos convulsos
Meu Deus, salvai-o!
Filhos são o demo
Melhor não tê-los...
Mas se não os temos
Como sabê-los?
Como saber
Que macieza
Nos seus cabelos
Que cheiro morno
Na sua carne
Que gosto doce
Na sua boca!
Chupam gilete
Bebem xampu
Ateiam fogo
No quarteirão
Porém, que coisa
Que coisa louca
Que coisa linda
Que os filhos são!
Filho? Filhos
Melhor não tê-los
Noites de insônia
Cãs prematuras
Prantos convulsos
Meu Deus, salvai-o!
Filhos são o demo
Melhor não tê-los...
Mas se não os temos
Como sabê-los?
Como saber
Que macieza
Nos seus cabelos
Que cheiro morno
Na sua carne
Que gosto doce
Na sua boca!
Chupam gilete
Bebem xampu
Ateiam fogo
No quarteirão
Porém, que coisa
Que coisa louca
Que coisa linda
Que os filhos são!
quinta-feira, março 30, 2006
DO TEU SABOR
O gosto da tua pele
sal impregnado em meus lábios
que me mata de sede
à beira da fonte dos teus prazeres.
O teu gosto na minha boca
mel que sacia meus desejos
na hora derradeira
do medo de te perder
em meio aos lençóis.
O teu cheiro impregnado
no meu corpo
perfume raro que nem a chuva
leva de mim...
® Ademir Antonio Bacca
* do livro “Pandorgas ao Vento”
O gosto da tua pele
sal impregnado em meus lábios
que me mata de sede
à beira da fonte dos teus prazeres.
O teu gosto na minha boca
mel que sacia meus desejos
na hora derradeira
do medo de te perder
em meio aos lençóis.
O teu cheiro impregnado
no meu corpo
perfume raro que nem a chuva
leva de mim...
® Ademir Antonio Bacca
* do livro “Pandorgas ao Vento”
quarta-feira, março 29, 2006
Desencontro
Há uma rua
que cruza entre nós,
cheia de sinais e de placas,
cheia de gente estranha,
e nos separa assim como somos:
dois corpos que se atraem
comandados por dois corações
que se evitam.
Há muito movimento
na rua que cruza entre nós.
Por isso temos nos encontrado
tão pouco...
© Ademir Antonio Bacca
do livro: “Asas e Coração”
Há uma rua
que cruza entre nós,
cheia de sinais e de placas,
cheia de gente estranha,
e nos separa assim como somos:
dois corpos que se atraem
comandados por dois corações
que se evitam.
Há muito movimento
na rua que cruza entre nós.
Por isso temos nos encontrado
tão pouco...
© Ademir Antonio Bacca
do livro: “Asas e Coração”
terça-feira, março 21, 2006
INJUSTIÇADOS DA INTERNET (1)
VLADIMIR KUSH
A internet tem servido de palco para que internautas desavisados cometam uma série cada vez mais crescente de injustiças contra escritores e artistas plásticos. Geralmente, textos e obras são atribuídos sempre a um autor famoso. Graças à poeta SOLANGE FIRMINO, este espaço pode fazer um reparo sobre um conjunto de artes belíssimas que vêm sendo erroneamente atribuídas a Salvador Dalí e na verdade são de autoria de VLADIMIR KUSH. A mim intrigava o fato de, fã incondicional de Dalí conforme já admitido em post neste blog, ter estado no museu do pai do surrealismo em Figueres, nas proximidades de Barcelona, e não ter visto nenhuma destas obras que lhe são atribuídas aqui na net, mesmo nos postais ali colocados à venda.
SOLANGE FIRMINO não apenas desvenda a verdadeira autoria dos quadros, como ensina o caminho para conhecer toda a obra de KUSH:
http://www.artifactsgallery.com/art.asp?%21=A&ID=762
Foi de lá que tirei estes dois trabalhos acima, que divido com vocês.
http://www.artifactsgallery.com/art.asp?%21=A&ID=762
Foi de lá que tirei estes dois trabalhos acima, que divido com vocês.
Mosaico
com a paciência
de um velho tecelão
preparo meu manto de lembranças
para quando o frio dos anos
anunciar seu inverno mais rigoroso
em lentos goles de vinho
faço desfilar na passarela
dos meus olhos
os sonhos que trago
dentro de mim
e assim,
noite após noite de insônia
monto o mosaico de todo o tempo
que me escapuliu
por entre os dedos.
© Ademir Antonio Bacca
do livro: “Plano de Vôo”
com a paciência
de um velho tecelão
preparo meu manto de lembranças
para quando o frio dos anos
anunciar seu inverno mais rigoroso
em lentos goles de vinho
faço desfilar na passarela
dos meus olhos
os sonhos que trago
dentro de mim
e assim,
noite após noite de insônia
monto o mosaico de todo o tempo
que me escapuliu
por entre os dedos.
© Ademir Antonio Bacca
do livro: “Plano de Vôo”
quinta-feira, março 16, 2006
JANELA SOBRE HERANÇA
Pola Bonilla modelava barros e crianças. Ela era ceramista de mão-cheia e mestre-escola nos campos de Maldonado; e nos verões oferecia aos turistas suas esculturas e chocolate com churros.
Póla adotou um negrinho nascido na pobreza, dos muitos que chegam ao mundo sem ter com que, e criou-o como se fosse um filho.
Quando ela morreu, ele já era um homem crescido e com ofício. Então os parentes de Pola disseram a ele:
— Entre na casa e pode levar o que quiser.
E ele saiu com uma fotografia dela debaixo do braço e se perdeu nos caminhos.
® EDUARDO GALEANO, no livro “As Palavras Andantes”
POEMAS QUE GOSTO (11)
Poeta, cronista e crítico de arte, AFFONSO ROMANO DE SANT’ANNA é um grande amigo que o Congresso Brasileiro de Poesia me proporcionou. Mesmo antes de sua primeira vinda ao evento, eu já era fã de sua poesia e, entre tantos poemas maravilhosos que ele escreveu, este é um dos meus preferidos.
ASSOMBROS
Às vezes, pequenos grandes
terremotos
ocorrem do lado esquerdo do
meu peito.
Fora, não se dão conta os
desatentos.
Entre a aorta e o omoplata
rolam
alquebrados sentimentos.
Entre as vértebras e as costelas
há vários esmagamentos.
Os mais íntimos
já me viram remexendo
escombros.
Em mim há algo imóvel e
soterrado
em permanente assombro.
AFFONSO ROMANO DE SANT’ANNA
Poeta, cronista e crítico de arte, AFFONSO ROMANO DE SANT’ANNA é um grande amigo que o Congresso Brasileiro de Poesia me proporcionou. Mesmo antes de sua primeira vinda ao evento, eu já era fã de sua poesia e, entre tantos poemas maravilhosos que ele escreveu, este é um dos meus preferidos.
ASSOMBROS
Às vezes, pequenos grandes
terremotos
ocorrem do lado esquerdo do
meu peito.
Fora, não se dão conta os
desatentos.
Entre a aorta e o omoplata
rolam
alquebrados sentimentos.
Entre as vértebras e as costelas
há vários esmagamentos.
Os mais íntimos
já me viram remexendo
escombros.
Em mim há algo imóvel e
soterrado
em permanente assombro.
AFFONSO ROMANO DE SANT’ANNA
nós
essa coisa
que há em nós
busca que não cessa
palavra que não sacia
esperança que a gente tece
teimosamente
todos os dias
essa coisa
que há em nós
bálsamo para tantas dores
que a gente acostumou
e nem mais sente
força estranha
que há em nós
em nos leva pelas ruas
em busca dessas coisas todas
que na madrugada
desatam nossos nós.
® Ademir Antonio Bacca
do livro “Plano de Vôo”
essa coisa
que há em nós
busca que não cessa
palavra que não sacia
esperança que a gente tece
teimosamente
todos os dias
essa coisa
que há em nós
bálsamo para tantas dores
que a gente acostumou
e nem mais sente
força estranha
que há em nós
em nos leva pelas ruas
em busca dessas coisas todas
que na madrugada
desatam nossos nós.
® Ademir Antonio Bacca
do livro “Plano de Vôo”
domingo, março 05, 2006
POEMAS QUE GOSTO (10)
CHRIS HERRMANN mora na Alemanha mas é uma das responsáveis por duas das comunidades mais agitadas do Orkut, que foi onde a conheci: “Café Filosófico das Quatro” e “Sociedade dos Pássaros-Poetas”. Gosto dos seus poemas e hai-cais. Este poema, anunciando a nova estação, divido com vocês:
OUTONO
Ainda que chegue o Outono
e as folhas caiam cegas e insistentes
sobre a relva molhada e desesperançada...
As raízes permanecerão ali quietas,
calmas e belas em sua verdade,
olhando para a gente...
Fazendo com que a esperança de um dia
suas folhas tornarem a crescer
e a cair novamente
se torne uma realidade.
CHRIS M. HERRMANN
CHRIS HERRMANN mora na Alemanha mas é uma das responsáveis por duas das comunidades mais agitadas do Orkut, que foi onde a conheci: “Café Filosófico das Quatro” e “Sociedade dos Pássaros-Poetas”. Gosto dos seus poemas e hai-cais. Este poema, anunciando a nova estação, divido com vocês:
OUTONO
Ainda que chegue o Outono
e as folhas caiam cegas e insistentes
sobre a relva molhada e desesperançada...
As raízes permanecerão ali quietas,
calmas e belas em sua verdade,
olhando para a gente...
Fazendo com que a esperança de um dia
suas folhas tornarem a crescer
e a cair novamente
se torne uma realidade.
CHRIS M. HERRMANN
sábado, março 04, 2006
DIA INTERNACIONAL DA MULHER
Em homenagem ao Dia Internacional da Mulher, a ser comemorado no próximo dia 8, dividido com vocês esse belíssimo poema da poeta carioca SOLANGE FIRMINO, que me orgulha com sua amizade:
SER MÃE, SER MULHER
A dor de Deméter
é minha dor.
O retorno de Perséfone
é minha alegria.
A prece de Maria é
meu silêncio.
Pandora, ordem do mundo,
é rancor para os homens
e corrente
para as mulheres.
Meu ventre, casulo de semente,
foi o único descanso real
do meu filho,
minha dor e
meu consolo.
® SOLANGE FIRMINO
Em homenagem ao Dia Internacional da Mulher, a ser comemorado no próximo dia 8, dividido com vocês esse belíssimo poema da poeta carioca SOLANGE FIRMINO, que me orgulha com sua amizade:
SER MÃE, SER MULHER
A dor de Deméter
é minha dor.
O retorno de Perséfone
é minha alegria.
A prece de Maria é
meu silêncio.
Pandora, ordem do mundo,
é rancor para os homens
e corrente
para as mulheres.
Meu ventre, casulo de semente,
foi o único descanso real
do meu filho,
minha dor e
meu consolo.
® SOLANGE FIRMINO
sexta-feira, março 03, 2006
da insatisfação
carrego comigo
sonhos tantos
e certezas poucas
porque a vida
é do jeito que é:
esquina para uns
labirinto para outros
carrego comigo
poemas tantos
e medos poucos
porque a noite
nem sempre parece
o que é
e dela eu quero mais
que um manto de estrelas
e uma mísera lua
de vez em quando
pendurada no céu
carrego comigo
verdades tantas
e esperanças poucas
porque a vida
nem sempre é.
® Ademir Antonio Bacca
do livro: ‘Plano de Vôo”
carrego comigo
sonhos tantos
e certezas poucas
porque a vida
é do jeito que é:
esquina para uns
labirinto para outros
carrego comigo
poemas tantos
e medos poucos
porque a noite
nem sempre parece
o que é
e dela eu quero mais
que um manto de estrelas
e uma mísera lua
de vez em quando
pendurada no céu
carrego comigo
verdades tantas
e esperanças poucas
porque a vida
nem sempre é.
® Ademir Antonio Bacca
do livro: ‘Plano de Vôo”
Sou fã incondicional do escritor uruguaio EDUARDO GALEANO. Li e reli diversas vezes todos os seus livros e a cada leitura descubro um pouco mais do talento deste grande escritor. De todos os seus livros, o meu preferido é "O LIVRO DOS ABRAÇOS", de onde tirei esta pequena história para dividi-la com vocês:
A FUNÇÃO ARTE
Diego não conhecia o mar. O pai, Santiago Kovadloff, levou-o para que descobrisse o mar.
Viajaram para o sul.
Ele, o mar, estava no outro lado das dunas altas, esperando.
Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. E foi tanta a imensidão do mar, e tanto seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza.
E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai:
- Me ajuda a olhar!
A FUNÇÃO ARTE
Diego não conhecia o mar. O pai, Santiago Kovadloff, levou-o para que descobrisse o mar.
Viajaram para o sul.
Ele, o mar, estava no outro lado das dunas altas, esperando.
Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. E foi tanta a imensidão do mar, e tanto seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza.
E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai:
- Me ajuda a olhar!

Na primeira vez que fui a Cuba, durante a viagem a Santa Clara onde está enterrado o corpo de Che Guevara, este painel na beira da rodovia chamou minha atenção. Depois, em visita à Biblioteca da cidade, eu e o poetas Hugo Pontes, Haidê Vieira Pigatto, Adélia Woellner e Diniz Félix dos Santos, mais meu sogro Dr. João Fausto Condurú, devidamente ciceroneados pelo grande poeta cubano Virgílio López Lemus, descobrimos o quanto um livro é valorizado naquele país: apesar do racionamento de energia elétrica em toda a ilha, na Biblioteca de Santa Clara existe uma sala de livros raros, com ar condicionado permanentemente ligado para preservá-los. Fosse aqui no Brasil, vocês sabem o que teria acontecido com os livros.
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