quinta-feira, outubro 27, 2011

Encontros no XIX Congresso Brasileiro de Poesia (3)
Foram muitos os encontros acontecidos durante o XIX Congresso Brasileiro de Poesia, tantos os abraços trocados e incontáveis foram os poemas declamados. Mas de todos os encontros o maior foi, sem dúvida nenhuma, o dos poetas com os alunos, já a partir do primeiro dia como mostra a foto acima. No palco cinco feras da poesia brasileira: Rodney Caetano, Affonso Romano de Sant'Anna, Ronaldo Werneck, Eduardo Tornaghi e Marina Colasanti. Na platéia, poetas, professores e alunos lotaram o Auditório Ivo da Rold, na Casa das Artes, para dar boas vindas ao tempo de poesia que o calendário de eventos de Bento Gonçalves repete todos os anos na sua festa de aniversário.

dos cuidados com a paixão

todo
laço
periga
virar
nó.

© Ademir Antonio Bacca
ANA CRISTINA CÉSAR

Arte: João Pinheiro
Nascida na cidade do Rio de Janeiro, ANA CRISTINA CÉSAR é um dos grandes nomes da geração mimeógrafo ou da chamada literatura marginal dos anos 1970. Seus primeiros poemas foram publicados no Suplemento Literário do jornal Tribuna da Imprensa quando tinha apenas sete anos. Criou-se entre Niterói e o Rio de Janeiro. Morou um ano em Londres (1968), onde travou contato com a literatura inglesa, e na volta deu aulas, traduziu, fez letras, escreveu para revistas e jornais alternativos. Formou-se em Letras em 1975. Foi professora de inglês e português em colégios de segundo grau e iniciou-se no jornalismo no semanário Opinião. Participou da antologia “26 Poetas hoje” (1976), organizada por Heloísa Buarque de Holanda, e publicou pesquisa sobre literatura e cinema. Seus primeiros livros foram lançados de forma independente: “Cenas de Abril” (1979), “Correspondência completa” (1979). Dez anos depois voltou a Inglaterra, onde, às voltas com um M.A. em tradução literária, escreveu muitas cartas e ao retornar, publicou “Luvas de pelica” (1980). Ao se suicidar, no dia 29 de outubro de 1983, aos 31 anos de idade, deixou diversas outras obras em prosa ou poesia e em ensaios, entre as quais “A teus pés” (1982), “Inéditos e dispersos” (1985), “Literatura não é documento” (1980), “Escritos da Inglaterra” (1988) e “Escritos no Rio” (1993).

jardins inabitados pensamentos
pretensas palavras em
pedaços
jardins ausenta-se
a lua figura de
uma falta contemplada
jardins extremos dessa ausência
de jardins anteriores que
recuam
ausência freqüentada sem mistério
céu que recua
sem pergunta

ANA CRISTINA CÉSAR
1952 - 1983
 
Escola Agostino Brum respira poesia o ano inteiro
Encontros no XIX Congresso Brasileiro de Poesia (2)
 Na Livraria do Maneco aconteceu a sessão de autógrafos de Ronaldo Werneck e Airton Ortiz, que dividiram a foto comigo e com o ator / palhaço / contador de histórias Glauter Barros, cujo personagem "Picolé" fez muito sucesso junto às crianças das escolas visitadas.

teia de encantos

aranha
a tecer meu sonho,
teus dedos deslizam
pelo mapa do meu corpo

não há barcos
no cais

não há lua
no alcance do vão da janela

só teus dedos
tecendo a teia de encantos
para aprisionar
o animal inquieto
que se move
dentro de mim

© Ademir Antonio Bacca
da antologia “Poesia do Brasil” – Vol. 13
Arte: Nei Lima
"O teatro é a única arte
que usa a criatura humana
como meio de expressão."

DIAS GOMES
1922 - 1999
Encontros no XIX Congresso Brasileiro de Poesia (1)
O XIX Congresso Brasileiro de Poesia, realizado na primeira semana de outubro aqui em Bento Gonçalves, proporcionou-me alguns reencontros com escritores a quem admiro de longa data. No flagrante acima, feito na Livraria do Maneco, a presença de Marina Colasanti, Márcio Borges, Affonso Romano de Sant'Anna e Colmar Duarte.

na contramão

há um rastilho de pólvora
sob os pés que avançam
calados
pela noite

intriga
que não haja medo
e nem indignação
nos olhares que avançam
sem olhar para os lados

há um rastilho de pólvora
sob a poeira de pés alienados
que avançam na contramão
sem lembrar
a letra da velha canção:

perdem a hora
e não fazem a história

© Ademir Antonio Bacca
da antologia “Poesia do Brasil” – Vol. 13

do que já perdi

as velhas molduras
penduradas na parede
enquadram apenas ausências

© Ademir Antonio Bacca
da antologia “Poesia do Brasil” – Vol. 13

sábado, outubro 15, 2011


 Foto: Jiddu Saldanha

Nos seus dezenove anos de existência, foram muitas as vezes que o Congresso Brasileiro de Poesia viveu momentos de grandeza poética, mas poucas se igualam às vividas na edição deste ano, encerrada no último dia 8. Tendo o poeta Affonso Romano de Sant’Anna como homenageado, o evento de Bento Gonçalves levou mais uma vez a poesia para as ruas, escolas e repartições públicas, com recitais, palestras e performances que encantaram e encheram os olhos de todos.
Affonso Romano de Sant’Anna e Marina Colasanti foram uma atração a parte: atenciosos, participaram de toda a programação, inclusive de eventos para os quais não estavam escalados, engrandecendo ainda mais o congresso, que firma-se cada vez mais como um dos melhores do gênero da América Latina.

do fingir

as respostas
que procuro em mim
nestes anos todos
que me escapuliram
por entre os dias
o espelho
joga na minha cara
todas as manhãs

mas eu finjo
que não vejo

© Ademir Antonio Bacca
da antologia “Poesia do Brasil” – vol. 14