terça-feira, abril 19, 2011



Arte: Angel Boligan
tipo assim: acordar e ir em frente

não há culpa
que me consuma
uma noite sequer
pelos erros que cometi

nem sequer mísera tentativa
de passar uma borracha
sobre qualquer das paixões
que vivi

entre erros e acertos
de todo meu caminhar
levo comigo a certeza
de que a vida é igual a um rio:
avança do jeito que dá

© Ademir Antonio Bacca
do livro “Grito por dentro das palavras”
Arte: Arradium


“O que me impressiona,
à vista de um macaco,
não é que ele tenha sido nosso passado:
é este pressentimento
de que ele venha a ser nosso futuro.”

MARIO QUINTANA
1906 - 1994
ENFRENTAMENTO

© HAIDÊ VIEIRA PIGATTO

Se estou bem?
Bem eu não estou
Nem mal
Estou assim como esse dia
Sem sal
Sem sol
Longo e incoerente.

Contento-me do que posso
Escolho o que me comove
Relembro o que me faz forte
E cada vez bebo mais
De tudo que é movimento
Dança, canto, amor
Poesia.

E quando o vale é só tédio
Alço-me esperta alpinista
E espio a vida do alto
Estradas, matas, coragens
Futuro, neves, bronzeados
Extensos verde-castanhos
Olhos do ser amado.
Arte: "Piano Alado" © Vladimir Kush

lágrimas douradas

a lua
cobre de dourado
a lagoa da minha infância
e eu não sei
se é o reflexo das estrelas
ou o brilho das minhas lembranças
quem molha os meus olhos
nesta noite de luar

© Ademir Antonio Bacca

Arte: Amarildo


“A corrupção não é
uma invenção brasileira,
mas a impunidade é uma coisa
muito nossa.”

JÔ SOARES
dos perigos

são
de
palha
as
asas
que
me
levam
ao
fogo
da
paixão

© Ademir Antonio Bacca
Arte: Salvanarro


“Uma mentira pode dar
a volta ao mundo
enquanto a verdade
ainda calça seus sapatos.”

MARK TWAIN
1835 - 1919



da preguiça II


Nas tardes de domingo
até nossos desejos
mais secretos
espreguiçam-se de tédio
diante da tevê.

© Ademir Antonio Bacca
Arte: Shankar Pamarthy


Se sou amado,
quanto mais amado
mais correspondo ao amor.

Se sou esquecido,
devo esquecer também,
Pois amor é feito espelho:
— tem que ter reflexo.

PABLO NERUDA
1904 - 1973

pensa
que é fácil
tirar da cartola
palavras mágicas
que te encantem
todos os dias?

tem vezes
que agradar
a pessoa amada
é tão difícil
quanto fazer
o gênio sair da garrafa.

© Ademir Antonio Bacca
do livro “Grito por dentro das palavras”

quarta-feira, abril 13, 2011


Arte: Quinho


TRADUZIR-SE

© FERREIRA GULLAR

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
— que é uma questão
de vida ou morte —
será arte?

terça-feira, abril 05, 2011

Arte: "City" © Marian Avramescu
interrogações dentro da noite que não acaba

quem será o meu ventríloquo
quando falo coisas que não quero?

quem mexe com os meus cordéis
quando minha vontade era ficar quieto
no meu canto?

quem é este outro poeta
que vaga por caminhos que não escolhi
como se fosse eu?

de quem estas palavras
que não dizem da missa a metade
daquilo que trago dentro de mim?

quem foi que me deixou
ancorado em terra firme,
olhos buscando velas no mar?

© Ademir Antonio Bacca
do livro “Grito por dentro das palavras”
das distâncias II

a cidade
começa lá no fim
do olhar

foram-se os anos
e o começo dela continua
no mesmo lugar
mas tudo me parece
tão perto

será a ajuda dos óculos?

© Ademir Antonio Bacca
Arte: Fernão Campos
“Se fiz descobertas valiosas,
foi mais por ter paciência
do que qualquer outro talento.”

ISAAC NEEWTON
1642 - 1727
catapora

nariz grudado no vidro
e a vida passando
lá fora.

(lembrando a catapora do Théo)

© Ademir Antonio Bacca
Arte: George Helal
“Um livro
é como uma janela.
Quem não o lê,
é como alguém
que ficou distante da janela
e só pode ver
uma pequena parte
da paisagem.”

KAHLIL GIBRAN
1883 - 1931
crise de identidade

diante
do espelho
tem dias
que
não sou
ninguém

© Ademir Antonio Bacca
Arte: Fraga
"E porque eu quero, temo.
Muitas vezes foi o medo
que me tomou pela mão
e me levou.
O medo me leva ao perigo.
E tudo o que eu amo é arriscado."

CLARICE LISPECTOR
1920 - 1977
o relógio de alice

na
casa
de
alice
o
relógio
se
desgovernou
quando
te
vi
pela
primeira
vez

© Ademir Antonio Bacca
do livro “O relógio de Alice”

do andar por aí


tantas coisas

carrego dentro de mim:

sonhos e desejos misturados

no fundo da velha mala

que tantas vezes abri no meio da rua


tem dias que levo o trigo

e busco alguém

que me ajude a amassar o pão

tem vezes que sonho

com o milagre da salvação



desviando de velhas lembranças

a vida algumas vezes se faz estrada

acidentada de viajar

e nem sempre o que carrego comigo

me faz sair do lugar



tem vezes que sonho

estar em todos os lugares

tem dias que me bastaria

dobrar a primeira esquina

e dar de cara com o mar


© Ademir Antonio Bacca

do livro “Grito por dentro das palavras”